Eu faço versos como quem chora
tDe desalento…de desencanto…
Manuel Bandeira
tEu faço versos como os saltimbancos
tDesconjuntam os ossos doloridos.
Mario Quintana
Quando adolescente, apaixonado por poesia, ia a todos os recitais da argentina Berta Singerman e da paulista Margarida Lopes de Almeida, no Teatro Municipal de São Paulo. O português João Vilaret, grande recitalista, em excursão pelo Brasil, anos depois, dava uma excepcional vida a alguns poetas seus patrícios que eu conhecia de livros. Enfim, poesia escrita e falada é parte imanente de minha vida.
Em 1958, em Porto Alegre, inventei um recital de poesia encenada (ou coreografada, com duas atrizes e quatro atores) – Poetas & Poemas – que transcendeu, em resultado, a todas as expectativas mais otimistas. Esse espetáculo, apresentado em Montevidéu, a convite da Embaixada Brasileira, como comemoração da nossa Semana da Pátria, resultou na fundação do Teatro de Equipe, no trem que nos conduzia de volta a Porto Alegre. Em dezembro, Paulo José estreava como diretor teatral, dividindo comigo “Rondó 58”, ele dirigindo os poemas que escolhera e eu os por mim escolhidos. Meses depois o sucesso repetia-se no Rio, onde apresentamos, também, “Esperando Godot”, de Beckett, dirigido por Luiz Carlos Maciel.
Feito esse “nariz de cera”, como eram chamadas, na imprensa, as palavras que introduziam uma matéria, conto com a liberalidade de meu editor em Coletiva, Vieira da Cunha, para, em vez de colunista, dar uma de repórter, que já fui.
No Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, dia 17 passado, retornei ao palco, aceitando um imprudente convite da produtora de Sexta em Verso, Joana Carmo. À imprudência de Joana somei a minha, pois é muito atrevimento ser sanduíche entre os talentos de Débora Finocchiaro e Mario Pirata. Joana, Debi, o tocaio e os amigos disseram que me saí bem (mas para que servem os amigos?). O poeta da noite foi Olavo Bilac, mas demos um “passeio” pelos poetas apresentados anteriormente, como Cecília Meireles, Cora Coralina, Drummond, Leminski, Pablo Neruda, Quintana e Vinicius.
Sexta em Verso é evento mensal realizado pelo Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, dirigido pela eficiência e simpatia de Nicéa Brasil. Dia 17, Érico, se vivo, completaria 99 anos, fato comemorado com champagne, servido aos presentes do Sexta em Verso, após a última apresentação neste 2004. Eu ganhei ainda, da Nicéia, um lindo livro sobre o Centro.
Lembramo-nos, Nicéia e eu, que, em novembro do ano passado, lá mesmo, a convite da Feira do Livro, escrevi um texto “descomemorativo” do Ato Institucional nº 5, lido por antigos companheiros do Equipe, Cristina Zanini, Ivette Brandalise, Marlene Ruperti, Armando Ferreira Filho, Hugo Cassel, Milton Mattos, eu mesmo e a jovem atriz cooptada, Valéria Lima. Aquela emocionante noitada rendeu um artigo meu, publicado aqui em Coletiva, com o título de “Estripando porcos”. Os “porcos”, no caso, eram os cinco ditadores, os signatários do ATO I-5, seus acólitos e ministros da Justiça (sic), como Buzaid e Armando Falcão.
Vieira da Cunha que me perdoe mas, agora, o repórter vira editorialista, coisa que também fui. Conheço esse nosso Brasil todo e posso afirmar que, respeitadas as diferenças populacionais, nenhuma capital tem uma vida artística e cultural tão efervescente como a Porto Alegre de hoje. E, melhor, essa efervescência, além da qualidade, sem desconhecer o Brasil e o mundo, aprofunda sua identidade pós açoriana e traduz os tempos e ventos dos pampas. Essa feliz idéia do Sexta em Verso, além de não ter nada semelhante, no país, nos leva de volta aos saraus de antigamente, quando o espírito celebrava a poesia. O champagne oferecido pelo aniversário do Érico propiciou-me o conhecimento e diálogo com muitos espectadores, alguns sempre presentes, mas todos – todos – entusiastas espectadores da Debi, do Pirata, dos poetas e dos convidados especiais. Eu, inclusive, tive uma alegria muito pessoal, pois fui o terceiro convidado do saudoso Teatro de Equipe, antecedido por Ítala Nandi, na noitada de Cecília Meireles, e por Paulo José, o convidado da noitada primeira, homenagem ao nosso Mário Quintana.
Termino afirmando que, se os promotores, TVErs, 107.7 FM Cultura e seus apoiadores, restaurantes Piacevole e Forno e Fogão, amam como Érico amou e eu amo Porto Alegre, Sexta em Verso está condenada à eternidade.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris).

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