Mais de 2000 voluntários da campanha Natal sem Fome, no Estado do Rio, superaram a meta e o excedente de alimentos foi enviado para outros estados.
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É Natal, e por ser Natal, a velhinha matreira, quase noventa anos, escolhe suas maiores pantufas e, cuidadosamente, coloca-as bem abertas, naquele lugarzinho que é quase debaixo da cama mas ainda não é.
Cumprindo um ritual muito antigo, pouco antes de uma hora da manhã, deita-se, sorri, suspira e adormece.
Apesar de nozes, castanhas e mil e outras comilanças de inverno degustadas a trinta e dois graus positivos, seus sonhos são leves e sutilmente coloridos de rosa. E lá vai, agora com ligeiros cinco anos de idade, carregando, num mini carrinho de bebê, uma linda boneca alemã de porcelana, sem nunca imaginar que um dia haveria bonecas com caras de debilóides. Nessa manhã de Natal, resgatada em sonho, a futura velhinha envergava, muito bem engomado, um vestido rosa como o sonho e, por ser serrana, sentia nos cabelos, ligeiramente aloirados, uma brisa que só quem viveu em serra aspira com a consciência de que há algo de milagroso no ar. Do mais fundo do seu sono a velhinha busca rever, em meio a nuvens que passam lépidas, o rosto de sua mãe, de seu pai, de sua irmã maior, de irmã menor, e de seu único irmão, o caçulinha. Tamanho esforço não é em vão; lá vem aquele jeito meio sério, meio zombeteiro da mãe que, só muito depois, descobriu ser uma das máscaras do ceticismo. E o olhar cúmplice do pai, aquele olhar que desde muito pequena ela percebeu que dizia mais ou menos isso:- Tá, filha, já que estamos juntos nessa esparrela de viver, que sejamos, no mínimo, solidários. Percebeu bem cedo que o pai passava a consciência de que ela mesmo é que iria usar a roupa cujo tecido ela tecia segundo a segundo. E não escondia que o ato de tecer era tão ou mais importante que o tecido. Reviu, nesses seus cinco anos, a irmã cuja decisão sua timidez invejava, reviu, ainda, a irmã menor que não tinha pudor em ser totalmente carinhosa, doce e receber sempre, com grande surpresa, todas as grosserias do mundo.E deliciou-se com o olhar de enfado com que o caçulinha expressava não agüentar mais ser o centro do mundo e que queria, apenas, ser um compenetrado garoto de dois anos. Quem, naquela madrugada, surpreendesse o sono da velhinha, iria descobrir um sorriso diferente quando, em sonho, iluminou-se a cadelinha basset, a companheira Jolie, louca por afagos, passeios e doces.
Naquela madrugada de Natal a velhinha ganhou em sonhos múltiplas jornadas e parou no seu aniversário de quinze anos quando, seu pai, com a dificuldade de sempre em falar muito sério com os filhos, sintetizou sua posição diante de seus cocôs adolescentes: – transgressões, desafios ao proibido, ações reprováveis, de modo geral, são maneiras de se afirmar. Mas a grande afirmação é fazer, muito bem feito, o que se tem que fazer. Ela aprendera como uma simples frase, dita no momento certo, pode ser a grande frase. Lembrou-se, sempre em sonho, que essa frase foi repetida para os filhos, que a repetiram para os filhos deles que estavam às vésperas de usá-la para os seus próprios filhos. E, pela primeira vez, ainda em sonho, perguntou-se se a frase era de seu pai, de seu avô, de quem, afinal? Impossível saber, mas quando, na festa de seu casamento, fez questão de dar a seu pai a primeira fatia do bolo que ele adorava e que ela fazia como ninguém, lembrou-se que entre doces, salgados, química e moda ela sempre conseguia fazer muito bem feito o que tinha que fazer. E percebeu que aquela tranqüilidade que os colegas diziam invejar deveria vir do fato de saber que se tivesse que fazer, faria bem feito. Já era cacoete.
Nesta madrugada de Natal a velhinha ganhou, em sonho, um caleidoscópio de recordações. As mortes e as separações inevitáveis para quem já viveu muito, estavam todas lá, desfilando naquela noite de dezembro, já embaladas para recordar, sem as dores do real e da hora que acontecem. Registros, compensados por nascimentos, encontros, viagens, descobertas. Antes de acordar a velhinha apertou o botão de “replay” e se viu, de novo, com cinco anos. Impossível esquecer aquela boneca alemã de porcelana embalada por três gerações e que a mãe comprara em Londres. E que ela ganhara naquele Natal de início de século. Impossível esquecer Jolie. Impossível esquecer que já se teve cinco anos. Impossível esquecer…
Quando a velhinha acordou, ainda estremunhada de tantas recordações, automaticamente procurou, com os pés, as pantufas. O atrito com os pés foi diferente e daí, então, ela acordou de vez. Entre pacotes e mais pacotes de presentes, ela puxou um grande envelope, rosa como o sonho do qual viera. Dentro, em letras garrafais, explodia o texto: Bisa, Feliz Natal.
Tranqüilamente, como sempre vivera, concluiu para si mesma que tivera, além de feliz Natal, uma vida feliz. E apesar de ser Natal, levantou-se lépida, lembrando-se que tinha muito trabalho pela frente.
Com quase noventa anos ela ainda era empurrada por séculos de esperança.

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