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Bobo só pensa bobagens

Em meio às comemorações de amigos de esquerda, pelo atentado às torres, eu dizia que Bin Laden havia prestado um imenso serviço aos espíritos …

Em meio às comemorações de amigos de esquerda, pelo atentado às torres, eu dizia que Bin Laden havia prestado um imenso serviço aos espíritos beligerantes e à indústria bélica dos EUA. Agora, quando já mataram muito mais muçulmanos que os mortos americanos e ingleses, tenho direito de pedir aos manifestantes do opróbio ao Bush que exibam pelo menos uma faixa de repúdio ao gerador do pretexto para esse genocídio todo. M.A.

Há milênios, quando o mestre Millôr escreveu que “pensar é só pensar”, entendi a frase como um convite ao ato, ou seja, pensar é uma resposta ao comando volitivo.

Quero pensar, por exemplo, na ausência da amada e penso, sofro, mas penso. Esse tipo de ato, resultado da minha vontade, já havia ganho de Descartes uma importância muito maior quando chutou: “Penso, logo existo”. Daí, começaram a pensar mais sobre o pensar e surgiram milhões de furungadas no tema, como as de Nietzsche, Schopenhauer e Freud. Da minha parte, concluí que eu existo a partir das bobagens que penso, bobagens incontroláveis, alheias à minha vontade ou falta de vontade. Penso bobagens, logo sou um bobo que existe. Exemplo: de quem o Diabo fugia antes de fugir da cruz, símbolo cristão utilizado milhões de anos depois de um anjo virar o Cão? Que bobagem, né?!! Meu consolo é que, em meio a tantas bobagens, tenho parceiros de peso. Leiam essa:

“No julgamento final, quando chegar perante Deus, e ele me perguntar o que você fez lá, naquele mundo terrestre, eu vou dizer que, ajudado pelos meus amigos e pelo meu partido, eu fiz isso, isso e isso. Vou tomar uns dois meses de Deus contando o que eu fiz. Aí ele vai dizer: Maluf, seus pecados são pequenininhos. Fica uns dez minutos no purgatório e depois vai pro céu”.

Sei de muita gente que foi pro Inferno direto só por causa de dizer baboseiras bem menores.

Acordei hoje com uma cascata de bobagens na cachola, a começar pela conclusão que a transgressão de Eva e Adão, ao comer o fruto proibido, foi de tamanha gravidade que, além de provocar a expulsão do Paraíso, a maçã acabou caindo na cabeça do Newton e o mundo foi condenado à lei da gravidade.

Ao mesmo tempo que Maluf saía da cadeia, saía outra bobagem da minha cachola: no meio de tantos kibes, esfihas e caftas, só mesmo esses Maluf me dão náusea.

Esforcei-me para entender como o ministro Carlos Velloso e alguns pares tiveram coragem de contrariar as regras do Supremo Tribunal de Justiça e devolver às ruas os Maluf pai e filho. O juiz Carlos Velloso, conforme foto badalada pela imprensa e pela Internet, comemorou a sentença com o advogado dos Maluf. Fundi a cuca na busca de uma explicação e ocorreu-me que poderia ser um gesto de fraternidade entre cidadãos da mesma cidade, estado ou faculdade. Nada. Maluf pai é engenheiro e nascido na capital paulista, filho de um industrial que pertencia ao IPES, um instituto que planejou e financiou, com dinheiro norte-americano, inclusive, o golpe de 1964. Nem Nelson Jobim, nem Sepúlveda Pertence, nem Marco Aurélio de Mello, nem Ellen Gracie Nortfleet são paulistanos nem paulistas. Não descobri o motivo dessa absurda exceção, mas posso afirmar que nesse negócio dos Maluf coisa que não houve foi solidariedade entre conterrâneos.  

Acho que Bin Laden é o nome da operação na qual a CIA cometeu os atentados terroristas de Nova York e Washington.

Além de pensar bobagens, lembrei-me que o primeiro grande golpe que levou o pessoal do colarinho branco a pegar cadeia, em 1993, incluía uma toga: o desvio de milhões da Previdência Social, escândalo que resultou das denúncias da então deputada estadual Cidinha Campos. Um juiz pegou xilindró mesmo e abriu caminho para, anos depois, em São Paulo, o juiz Lalau – Nicolau dos Santos Neto – modificar sua ótica geométrica de ver o sol nascer e devolver aos cofres públicos todos os bens resultantes do botim.  

Entre bobagens e lembranças, entre safadezas e gestos inexplicáveis, ocorreu-me o trecho mais famoso do celebrado poema do espanhol Antonio Machado:

“… caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

 

***

Presbiopia é o nome dado à diminuição da capacidade do olho focalizar de perto em função da idade.   A presbiopia se inicia, na maioria das pessoas, a partir dos 40 anos de idade. Os sintomas iniciais são cansaço e dor de cabeça e as pessoas procuram afastar os objetos para ver melhor. A presbiopia é um fenômeno inevitável. Com o avançar da idade, o cristalino perde elasticidade, e o  seu poder de acomodação reduz-se. Além disso, o músculo ciliar perde a capacidade de se contrair para movimentar as cartilagens do cristalino. Aos 43 anos de idade, eu percebi que estava com deficiência visual e passei a usar óculos para ler. Muito tempo depois, inventaram que surdo não é surdo, é deficiente auditivo, e os cegos viraram deficientes visuais. Agora, para ninguém pensar que sou cego, explico que sofro de presbiopia. Sou politicamente correto e acho, também, que fiquei meio fresco.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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