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Boludos e Hinchapelotas

Quando meu pai se referia a uma pessoa pela qual tinha pouco apreço, dizia que era um hinchapelotas. Em outras ocasiões, usava uma expressão …

Quando meu pai se referia a uma pessoa pela qual tinha pouco apreço, dizia que era um hinchapelotas. Em outras ocasiões, usava uma expressão mais pesada, sugerindo que o fulano era um trapichero. E, quando algum fato não merecia uma explicação lógica, sentenciava: “- Son cosas de bandoneón”.

***

Eram antigas lembranças de suas andanças por Buenos Aires, mas o que eu não sabia na época é que ele usava o lunfardo, a gíria dos arrabaleros portenhos, considerada pelos bem nascidos de então como “dialeto dos ladrões”.

Anos mais tarde, aprendi que gíria é tema cultural na Argentina, onde funciona uma Academia Porteña del Lunfardo, dedicada a estudos sobre a fala coloquial dos moradores dos arrabaldes e da zona portuária. Quando famosos tangueros, como Carlos Gardel e Edmundo Rivero, popularizaram o vocabulário lunfardista em tangos e milongas, o tradicional diário “La Prensa” publicou um glossário com as palavras mais comuns da irreverente gíria, que passaram a ser adotadas por metade da população de Buenos Aires.

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O meu primeiro encontro sério com o lunfardo aconteceu nos anos 80, no centenário Café Tortoni, santuário de boêmios e intelectuais portenhos. Até então, eu ouvia – mas não entendia – nas esquinas e bodegóns da cidade expressões que não se encontram nos dicionários do idioma castelhano. Por sorte, quem me acompanhou foi Carlito Irigochea, notívago e publicitário, que conhece uma por uma as letras dos tangos clássicos de Celidonio Flores e Alfredo de Pera.

Quando chegamos, as mesas estavam ocupadas por animados senhores de cabelos brancos, tomando seus chupes e birras – e a lição já começa ali: chupes significa aperitivos e birras, cervejas.

Sentamos junto a uma roda envolvida em animada conversa, onde Carlito logo identifica falas típicas dos lunfarderos. Para enriquecer a cena, um deles está abraçado a uma guitarra, a qual dedilha de quando em vez, para sublinhar os comentários mais picantes dos amigos.

Meu amigo começa a atuar como intérprete, pescando e traduzindo o palavreado do grupo, enquanto eu procuro anotar as expressões mais pitorescas:

“No tiene los patitos en fila”: referindo-se a alguém amalucado;

“Lanzar los chivos”: vomitar, estar enjoado;

“Bacan”: pessoa de boa figura, endinheirada;

“Usá el marote": usar o cocoruto;

“Me gasté una luca en pilchas”: gastei mil pesos em roupa;

“Hay morfi y chupi en la fiesta!”: há comes e bebes na festa.

Neste ponto, meu amigo lembra que os portenhos gostam de usar a culinária para qualificar pessoas. Assim, “papa frita” ou “salame” quer dizer bobo ou otário, enquanto “zapallo” (abóbora) significa cabeça-dura. Já alguém usado em um negócio sujo (no Brasil chamamos laranja) é “perejil” ( salsinha). Também é muito popular a expressão “la verdad de la milanesa”, para enfatizar um fato que não admite contestação.

Na mesa ao lado, o assunto passa para política. Carlito avisa que lunfardo é a linguagem preferida para se falar mal da política e dos políticos. Estico o ouvido e anoto:

“Vos estás del tomate si crees que los diputados Morandi y Agoreña van a devolver el dinero que robaron”. 

Essa dispensa tradução – claro que “del tomate” quer dizer que alguém não bate bem da cabeça.

***

Eu estava me divertindo com a primeira aula sobre lunfardismo, mas ela termina logo, pois o grupo se dispersa, sobrando apenas o homem com a guitarra, que agora toca para si mesmo. Na saída, me despeço de Carlito, que me entrega um pequeno pacote. Entro no taxi e abro o embrulho – é um livrinho em inglês, com o provocativo título: “¡Che Boludo! – A gringo guide to understanding the Argentines”.

A capa do livro me ensina uma importante lição: como fazer o gesto típico que deve acompanhar a palavra boludo. Detalhe para não esquecer: boludo tanto pode significar um insulto como um termo afetuoso.

Sobre a sugestão do subtítulo, não sei se um dia conseguirei entender meus amigos portenhos.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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