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Calou-se um poeta sem palavras

Comunico a todos meus amigos e antigos freqüentadores do Antonio”s que acabo de receber notícias atualíssimas do nosso Manolo, o empresário galego que recebeu …

Comunico a todos meus amigos e antigos freqüentadores do Antonio”s que acabo de receber notícias atualíssimas do nosso Manolo, o empresário galego que recebeu os títulos honorários de cidadão carioca e fluminense, pela direção da casa que, durante duas décadas, se tornou um ponto de encontro da inteligência carioca. Lá em sua natal Santa Comba, uma vila ao lado de Santiago de Compostela – de acordo com um seu conterrâneo de lá chegado – dedica-se somente à obesidade. Manolo transformou-se num gordo feliz.

Escrevi aqui sobre Fernando Sabino e que a despedida terrestre dele acrescentou mais um nome de peso ao fato que o “segundo” Antonio”s está ficando maior que o primeiro. Agora o mineiro-carioca, Mauro Borja Lopes – Borjalo – foi ao encontro do seu chefe na Globo – Walter Clark – e de seu chefe na Manchete – Adolfo Bloch – e de um montão de velhos fregueses do Manolo.

Conheci Mauro Borja Lopes, em pessoa e ao vivo, pouco mais de 10 anos depois de já ser um fanático admirador de suas charges publicadas em Manchete, até ele decidir-se, de corpo e traço, pela televisão. Quando eu morava ainda em São Paulo, nos primeiros anos 50, se fosse quarta-feira e eu chegasse em casa sem a Manchete, saia de novo só para comprá-la e, principalmente, para degustar a última página assinada por ele. Acabei conhecendo-o no Antonio”s e pouco depois éramos colegas na Rede Globo, ele ligado à produção e programação e eu à propaganda, dirigindo a Agência da Casa que lá implantei. Na Globo, Borjalo deixou duas criações inesquecíveis, a zebra que entrava nos resultados inesperados da Loteca e, com Boni, o “plimplim” que, até hoje, sinaliza o início e o fim dos intervalos comerciais.

A nossa amizade cresceu e, há uns 20 anos, Borjalo internou-se no Hospital Samaritano, para uma cirurgia na pálpebra. Fui visitá-lo e ele me disse de sua vontade de voltar ao desenho, há tempos abandonado, mas que estava tendo dificuldade de encontrar um papel apropriado. Encarei o problema e, auxiliado por um profissional do ramo papel, mandei para ele uma amostra. Acertamos na mosca. Pouco tempo depois ele surpreendia os amigos com a fase que batizou de “Reencontro”. O primeiro trabalho era um espanto, um desenho de um 1,05×0,75m, um edifício com mais de mil personagens e outras figuras. Esse “O Reencontro” abriu o livro “O Caçador de Borboletas”, editado pela Rede Globo em 1986 e apresentado por outro mineiro-carioca, Otto Lara Resende, que já há bastante tempo freqüenta o “segundo” Antonio”s.

Borjalo, pelas tantas vezes que eu pedia licença para usar seus trabalhos, e pelos outros que ele fez a pedido, para ilustrar meu livro sobre a história do Comércio no Brasil, começou a dizer, carinhosamente, que eu era a “cafetina dele”. Justifiquei o apelido usando e abusando de usar seus trabalhos. Borjalo foi antes de tudo um poeta do traço e, também, um apaixonado pela natureza, criando, inclusive, algumas charges referentes ao meio ambiente e, há muito, consideradas clássicas.

Borjalo teve a delicadeza de me deixar – como herança – a preciosa amizade de seu filho, Gustavo, que me ajudou durante um bom tempo a carregar o andor de múltiplas atividades na Fundação Roberto Marinho, onde fui o Diretor de Comunicação.

Foi-se o amigo e fica a imortalidade da obra.

Inté.

O gênio: na apresentação do meu livro, O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória (1995), escrevi: “Mauro Borja Lopes quando assina Borjalo, vira gênio. Borjalo teve a generosidade de ilustrar, a meu pedido, algumas páginas deste livro. E autorizou que eu usasse outras, do seu repertório de traços internacionalmente aplaudidos. O poeta está aí, para quem não o conhece, e reconquistando o sorriso de quem já se esquecera dessa delikatessen de humor”.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris).

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Autor

Mario de Almeida

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