Provérbios Y Cantares
Canto XXIX
Caminhante, são os teus vestígios
O caminho, e nada mais:
Caminhante, não há caminho,
Se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
E ao voltar a vista para trás
Se vê a senda que nunca
Se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Apenas rastros no mar.
Antonio Machado
Tradução Vera Verissimo
Em 1939, com sete anos e sete meses, entrei para o Curso Primário da Escola Caetano de Campos, na Praça da República, São Paulo, edifício de Ramos de Azevedo e, hoje, Secretaria de Educação do Estado.
Logo no início das aulas, fui objeto de proselitismo do Odécio, um são-paulino roxo, como se dizia. Eu, ainda sem clube, abracei a causa tricolor. Na metade dos anos 1940, assisti à despedida de Leônidas da Silva dos gramados e da ‘bicicleta” que ele inventara na Copa do Mundo de 1938. O “Diamante Negro” jogava pelo São Paulo Futebol Clube.
Odécio, além de torcedor do São Paulo, era fanático por rádio e imitava alguns locutores esportivos, principalmente o José Geraldo de Almeida que, muito tempo depois, foi a voz do Brasil na transmissão da Copa de 1970.
Ainda no Primário, a casa do Odécio, na Aclimação, foi o meu “velódromo”, onde aprendi a cair e, até, andar de bicicleta.
Já no ginásio, havia um dia da semana sem a última aula da manhã, e a gente ia para o auditório da Rádio Tupi, no Sumaré, assistir a um programa de variedades onde a gostosa Hebe Camargo iniciava sua carreira de cantora (suspiros).
1962, indo de Porto Alegre para São Paulo, ao desembarcar no Aeroporto de Congonhas, ouvi um aviso de embarque, pelo alto-falante, encerrado pelo tradicional “Boa Viagem”. Procurei o balcão de informações do Touring, me apontaram uma porta do DAC. Entrei, perguntei pelo Odécio, mostraram-me outra porta, entrei, dei de cara com o amigo que levou um susto
– Como você me descobriu?
– Pelo alto-falante.
-0-
1946, ginásio na Caetano, pouco depois do início das aulas, aparece um “negro” queimado pelas férias nas praias cariocas. Estabelece-se uma empatia imediata e ele me pede que escreva uma cartinha para a namorada carioca que ele deixara no Rio. Inaugurei a atividade de ghostwriter que, muitas décadas depois, incluiria o dr. Roberto Marinho assinando textos escritos por mim.
Eusilles, o garoto, estava sendo provocado por um outro, maior que ele, e tive que comprar aquela briga. Briguei por ele.
Lá pelos anos 1990 fui vítima de uma chantagem por parte dele: só continuaria a me gratificar com algumas mordomias se eu passasse, quando em São Paulo, a ser seu hóspede, que estava divorciado e morando sozinho no Morumbi. Como essas mordomias incluíam ser apanhado e levado para o aeroporto, inda que constrangido, aceitei. Ao acordar na primeira manhã como hóspede, ele perguntou:
– Que tal?
– Tudo ótimo, mas só durmo bem com um rádio na cabeceira.
Já no Rio, dias depois, ele telefona:
– O rádio está na cabeceira, quando você vem?
-0-
Na mesma safra do Eusilles, fui colega do Modesto, eu era o 32 e ele o 33. Leitor fascinado pelos livros, como eu, lembro-me que conversamos muito sobre Monteiro Lobato. Ele se nutria na Biblioteca Infantil da Prefeitura, na Vila Buarque, e eu nas bibliotecas da Caetano.
Em 1949, quando acabaria meu mandato de presidente do nosso Grêmio 2 de Agosto, Modesto declarou-se interessado em me suceder. Passei-lhe o cetro.
Em 1975, tentaram enxovalhar a memória da educação pública paulista, demolindo o edifício de Ramos de Azevedo, um quarteirão inteiro – com porão e três andares – para a construção de uma megastação de metrô. Fiz parte do levante dos ex-alunos da Caetano que se uniram para defender a moral pública, e Modesto, com o seu saber jurídico, conseguiu o tombamento do edifício.
-0-
Uma turma de amigos caetanistas, interessados em acampar nos feriados prolongados e nas férias escolares, acabou sendo um grupo fraterno que se encontrava, também, nas noites de sábados e domingos, frequentava festas e ia em grupo aos cinemas. Batizado como Shimox, vocábulo inventado por um companheiro de porre, teve vida longa durante os anos escolares. Entre os participantes, o amigo Celso.
1949: tarde do último sábado antes do Natal, Celso e eu fomos para uma partida de bola ao cesto (inda não era basquete) na Caetano e que não houve por W.O. do adversário. Celso e eu juntamos nosso dinheiro para optar por um programa, mas era uma mixaria. Resolvemos que eu, um jogador de primeira, tentaria a sorte no salão de snooker que frequentávamos. O enorme salão, com umas 20 mesas, estava absolutamente vazio, exceto por um gerente conhecido da Companhia Telefônica. Aprazadas as condições do jogo, menos de duas horas depois, eu havia esvaziado os bolsos do gerente e levantado um bom dinheiro. Não me lembro qual o presente que o Celso deu para sua namorada, mas a minha ganhou uma bolsa de couro de crocodilo.
Semana passada, quando cumpri aniversário, telefonaram-me de São Paulo, além de parentes, Odécio Vicente de Faria, Modesto de Souza Barros Carvalhosa e Celso de Almeida Roberti. Eusilles da Costa Pastore telefonou de Serra Negra, onde mora há alguns anos.
Inté.
Vitrine (comentários sobre a última coluna)
Mario querido, parabéns pelos 81, na data de ontem. Francamente, não conheço um cronista mais versátil, em que ressalta sempre o afeto pelas pessoas, tanto mais quando são pecadoras.
Por outro lado, V. é cada vez mais gaúcho. Fica evidente que a época em que você lá recriou e vivenciou o teatro (57/64) é capaz de transportar até baianos e cariocas. Agradeço, como todos os demais privilegiados, as suas crônicas deliciosas. Abraços. Modesto Carvalhosa, São Paulo
Tudo o que é galante é muito cativante, perdão pela rima, mas não resisti. Porque essa última coluna foi mesmo cativante, parece que estamos conversando sobre coisas daqui. Só falta a mesa do bar. Mas os bares de hoje não são mais como antigamente, ou nós não nos reunimos mais como antigamente. Saudade dos tempos na casa dos Reverbel. Dia 20 haverá um evento no Instituto Estadual do Livro, em homenagem ao centenário do Carlos. Da Olga ainda falta.
Beijo, Vera (Veríssimo). Porto Alegre
Como sempre, mais uma crônica maravilhosa!!!!! Aproveito para te desejar um níver em grande estilo!!! Seja feliz amigo querido!!!!!!!!!!! Beijos. Cláudia Almeida, Rio
Mario, gostei muito da matéria de hoje.Aleluia. Gilberto (Ramos), Rio
Um rapazola que pediu para ler suas “Histórias Galantes” ficou assustado. Vou vazar daquela coroa… fui. Ontem ela se entregou. Disse que era “mal” casada com um tira que até batia nela. Nem Jorge Amado, nem Rubem Braga, tô fora. Pena que ela é o meu número… Está vendo, seu Mario? Abração. Léo Christiano, Rio
Mario, tudo bem? Sempre ouvi dizer que “a crase não foi feita pra humilhar ninguém” era de Ferreira Gullar. E agora? Mudou o Natal ou mudei eu? Abração. Juvenal (Azevedo), São Paulo
Resposta:
Juvenal, você não mudou nada, quem mudou fui eu, o milésimo cara a furtar do Ferreira Gullar
a autoria dessa frase. Há, inclusive, uma divertida crônica do Gullar sobre as “muitas” autorias da frase. De minha parte, Fernando Sabino (sem se dizer autor) disse-a para mim, para que, anos depois, eu claudicasse. Grato pela correção, mas tenho certeza que, quanto ao Natal, o “mudaria o Natal ou mudei eu?” é o último verso do “Soneto de Natal” do nosso eterno mestre do idioma, Machado de Assis.
Quem quiser se divertir, que leia a crônica do Gullar sobre a sua crase, que acabou humilhando este colunista quanto à autoria:
Brinde:
http://sergyovitro.blogspot.com.br/2011/07/ferreira-gullar-uns-craseiam-outros.html

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