
“Viva cada dia como se fosse o último.
Um dia você acerta”.
Barão de Itararé.
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A considerar o grande número de publicações humorísticas que circulavam no Brasil na primeira metade do século XX, podemos concluir que este país já foi mais bem humorado do que atualmente. Na Primeira República, os políticos e homens públicos despertavam cada dia com os chistes, as sátiras e caricaturas muitas vezes ferinas de A Careta, O Malho e da Fon Fon, que circularam por 50 anos até desaparecem na década de 1960.
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Foi um período áureo para o jornalismo de crítica social e política. Qualquer assunto era mote para blagues e ironias, desde a falta d’água nas torneiras do Rio de Janeiro até os desmandos de prefeitos, deputados e senadores, vergastados sem dó nem piedade.
O que nem sempre era bem aceito por alguns dos poderosos, que em certas ocasiões, perderam a paciência, mandando fechar jornais e prender jornalistas. Quando não os espancavam com violência, o que aconteceu quando a polícia do Estado Novo invadiu a redação de A Manha do Barão de Itararé, surrando seus redatores. O grande frasista então colou na porta um aviso:
“Entre sem bater”.
O humor como arma de crítica política e sátira social fez escola e deixou um legado, recolhido e desenvolvido pelos humoristas de nosso tempo. Os programas de humor da Rádio Nacional e o PIF-PAF de Millôr Fernandes nos fazem recordar o tempo em que publicações de humor se esgotavam nas bancas antes dos jornais matutinos:
“Livre como um táxi”.
“Democracia é quando eu mando em você,
ditadura é quando você manda em mim”.
“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem”.
“O comunismo é uma espécie de alfaiate que quando
a roupa não fica boa, faz alterações no cliente”.
“O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”.
“A gente só morre uma vez. Mas é para sempre”.
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Outra forma de humor inteligente muito comum eram os chistes, hoje desconhecidos e fora de uso. Foi praticada com refinamento em jornais e revistas – e mais tarde no rádio – por humoristas como J. Carlos, Péricles, Raul Pederneiras, Paulo Gracindo, Lúcio Mauro e tantos outros.
Os estudiosos definem o chiste como um sofisticado recurso da língua, ao condensar múltiplos significados em uma única palavra ou frase. Como familionário, que reúne os vocábulos família e milionário. Até consta como verdade que Sigmund Freud estudou o chiste e a sátira, que afirmava ser um mecanismo válido para descarregar agressividade. Em um tratado sobre o tema deu um exemplo:
Um homem convida uma jovem italiana a dançar. Ela aceita, mas dança muito mal. O homem pergunta:
“- Todas as italianas dançam mal?”
Ao que ela responde:
“- Non tutti, ma buona parti”.
Que traduzido do original italiano perde parte da graça:
“- Nem todas, mas boa parte”.
(Buona parti ou Buonaparte?).
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Antes do advento dos programas de humor na TV, era comum encontrar blagues (ou chistes) nos jornais diários. Em 1988, o Jornal do Brasil registrou com uma simples frase o lançamento do livro “Brejal dos Guajás” do ex-presidente José Sarney:
“Um livro que quando você larga não consegue mais pegar”.
Os políticos habitualmente convivem mal com blagues e chistes, mas nem sempre podem reclamar, quando reproduziam suas próprias sandices. Como o caso de uma conhecida figura pública:
“Porque judeus e árabes não se reúnem para discutir
seus problemas como bons cristãos?”.
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Quem for dotado de boa memória lembra alguns clássicos da irreverência jornalística. Como o publicado em O Dia, do Rio de Janeiro, ao noticiar um episódio de 1967, quando o músico Sérgio Ricardo, irritado com as vaias, quebrou e jogou seu violão na platéia. A manchete de primeira página esgotou a edição do dia seguinte em poucas horas:
“Violada no Auditório!”.
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