Em “Cidades Invisíveis”, Ítalo Calvino descreve com detalhes surrealistas o cenário urbano de várias cidades, e o modo de vida de seus habitantes. São cidades de sonhos ou de pesadelo, conforme o humor de Kublai Khan, o imperador dos tártaros, a quem o emissário Marco Polo relata suas missões diplomáticas. Às vezes se trata de uma cidade dentro da outra, com suas leis e costumes que em nada fazem lembrar o conjunto social, as edificações ou mesmo o modo de viver e morrer da cidade hospedeira, a que contém a segunda cidade.
Na cidade dentro da outra, por exemplo, seus habitantes – homens, mulheres e as crianças – vivem na mais negra miséria e convivem normalmente com o zunido das balas traçantes que riscam o ar durante todo o tempo. Também se tornaram indiferentes aos cadáveres de olhos abertos dos que tombam no combate entre bandos rivais e estes e a polícia. Não que os habitantes da cidade em que ela está embutida não saibam o que acontece e não enxerguem a violência que se alastra por toda a parte, avassaladora e aterrorizante. Sabem, enxergam, mas nada disso altera as suas rotinas. Preferem se omitir, a exemplo das elites que viveram os últimos dias de Roma. Face à fragilidade do fio que os liga à vida, diante do quanto tudo pode ser efêmero, as famílias abastadas passaram a fazer mais festas, a ingerir mais drogas, e a diversão desenfreada passou a ser um estilo de vida. Um hedonismo extremado se enraizou e logo disseminou sua virulência nas areias brancas das praias, nos bares, nos apartamentos glamurosos com vista para o mar, como numa festa sem dia e sem noite no sanatório geral.
Com o tempo a cidade dentro da outra cresceu e se espalhou sem controle. E a cidade-mãe viu seus domínios reduzidos, a ponto de se transformar numa ilha cercada pela cidade que antes era a excrecência. Viu-se, portanto, cercada e invadida pelos mortos de fome, os mortos de medo e os mortos-vivos, animados por drogas e adrenalina. As autoridades da cidade ilhada não possuem nenhum plano para retomar o estado de direito, agora desfigurado pelo estado de fato. E, na falta de um plano, incentivaram uma imensa festa coletiva para saudar os jogos com as cidades do além mar.
Só mesmo o enorme poder fabulatório de Ítalo Calvino para criar uma literatura ficcional como esta. Só mesmo uma mente prodigiosa para criar uma narrativa tão irreal, anos luz da boa e velha realidade.
Como no capitulo “A cidade e os desejos”, os viajantes que chegam à cidade-ilha ficam extasiados com os seus encantos, as suas belezas naturais, como se ela fosse um sonho. Mas imediatamente compreendem que estão visitando uma cidade-armadilha.
Nota do Autor: Ítalo Calvino jamais escreveu um conto sobre a Cidade Maravilhosa.

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