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Coluna de Mario de Almeida

Robert Allen Zimmerman – Bob Dylan – 75 anos, compositor e cantor norte-americano, acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, o que provocou …

Robert Allen Zimmerman – Bob Dylan – 75 anos, compositor e cantor norte-americano, acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, o que provocou uma celeuma nos meios de comunicação no mundo ocidental. Choveram   críticas por considerarem que sua obra musical não se enquadra no gênero literário. A Academia sueca, responsável pela distinção, discorda e enaltece a sua obra como do gênero poético. Não vou discutir, resta desfrutar a óbvia genialidade do artista.

Lembrei-me da música popular brasileira e da quantidade de letras que invadem a poesia:

Chão de Estrelas

Orestes Barbosa e Sílvio Caldas

Minha vida era um palco iluminado

Eu vivia vestido de dourado

Palhaço das perdidas ilusões

Cheio dos guizos falsos da alegria

Andei cantando a minha fantasia

Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro

Tinha o cantar alegre de um viveiro

Foste a sonoridade que acabou

E hoje, quando do sol, a claridade

Forra o meu barracão, sinto saudade

Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns dependuradas

Na corda, qual bandeiras agitadas

Pareciam um estranho festival

Festa dos nossos trapos coloridos

A mostrar que nos morros mal vestidos

É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco

Mas a lua, furando o nosso zinco

Salpicava de estrelas nosso chão

Tu pisavas nos astros, distraída

Sem saber que a ventura desta vida

É a cabrocha, o luar e o violão.

A poesia está incorporada à nossa MPB e, na memória, seus resíduos são muitos:

Seguem uns e outros, provavelmente com alguns erros:

Tire o seu sorriso do meu caminho que quero passar a minha dor…

Levanta, sacode a poeira, dê a volta por cima… 

Foi um rio que passou na minha vida…

Recordar é viver, ontem sonhei com você…

Saudosa Maloca

Adoniran Barbosa

Se o senhor não tá lembrado

Dá licença de contá

Que acá onde agora está

Esse aditício ardo

Era uma casa véia

Um palacete assobradado

Foi aqui seu moço

Que eu, Mato Grosso e o Joca

Construímos nossa maloca

Mas um dia, nós nem pode se alembrá

Veio os homis c’as ferramentas

O dono mandô derrubá

Peguemos todas nossas coisas

E fumos pro meio da rua

Apreciá a demolição

Que tristeza que nós sentia

Cada táuba que caía

Doía no coração

Mato Grosso quis gritá

Mas em cima eu falei:

Os homis tá cá razão

Nós arranja outro lugar

Só se conformemo quando o Joca falou:

“Deus dá o frio conforme o cobertor”

E hoje nós pega páia nas gramas do jardim

E prá esquecê, nós cantemos assim:

Saudosa maloca, maloca querida

Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossa vida

Saudosa maloca, maloca querida

Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossas vidas

A Banda

Chico Buarque

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou

O faroleiro que contava vantagem parou

A namorada que contava as estrelas

Parou para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu

A rosa triste que vivia fechada se abriu

E a meninada toda se assanhou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou

Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou

A moça feia debruçou na janela

Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu

Minha cidade toda se enfeitou

Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto

Em cada canto uma dor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor

Depois da banda passar

Cantando coisas de amor

Sérgio Cabral, o pai, Cyro del Nero e eu fizemos, para a Editora Globo, há décadas (então Rio Gráfica), uma antologia com textos e LPs da nossa Música Popular.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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