Desde os tempos de criança, ouço a frase:
“- Isto não presta, é marca diabo!”.
A condenação valia para qualquer produto de má qualidade, que deveria ser sumariamente rejeitado. No entanto, não identificava a origem da picaresca expressão até que um amigo livreiro, de antiga família de Pelotas, contou-me da vida de João Simões Lopes Neto, o autor de “Casos do Romualdo” e “Lendas do Sul”.
Ele fundou empresas, publicou livros de contos e escreveu peças de teatro. Seus escritos só foram aplaudidos após sua morte, quando se transformaram em ícones da literatura nativa. O talento criativo de Simões Lopes Neto gerou personagens como Blau Nunes e ajudou a forjar o emblema do gaúcho destemido, o mitológico “centauro dos pampas”.
Homem inquieto, ansiava por fazer alguma coisa por sua sofrida Pelotas dos tempos pós-revolução. Frequentou as redações de jornais provincianos, onde assinava colunas como João do Sul. Mas não foi um grande jornalista e o que produziu foi por ele mesmo classificado como “literatura de circunstância”.
Também não revelou talento nos empreendimentos empresariais. Sua passagem pelo mundo dos negócios pode ser considerada como uma triste seqüência de desastres, que o fez morrer pobre. As empresas que fundou não sobreviveram para conhecer o sucesso de sua obra literária. Herdeiro de propriedades modestas, arriscou todo o patrimônio em temerárias aventuras. Vivia-se a década de 1890, um período difícil, com a economia do Estado arruinada pela guerra civil.
Mas não se pode dizer que tenha faltado inventividade e audácia em seus negócios. Começou com uma fábrica de vidros, cujos artesãos eram franceses e os aprendizes, meninos pobres recrutados na região. Não deu certo. A seguir, montou uma destilaria, convencendo dezenas de estancieiros a comprarem ações da nova empresa. Criou uma firma de moer e torrar café, a Café Cruzeiro, com a intenção de produzir o melhor café do mercado a preço acessível a todos os bolsos. Os anúncios, que ele mesmo redigia, apregoavam:
“Mais barato seria se não fosse o desgraçado do imposto”.
Simões Lopes inventou ainda um preparado à base de tabaco para combater sarna e carrapatos, a Tabacina, que se manteve no mercado por dez anos. Porém, com escassos lucros. Tempos depois, fundou a Empresa de Mineração do Taió, para explorar lendárias minas de prata, supostamente localizadas em Santa Catarina. Um ferreiro esperto, que se intitulava engenheiro, lhe arrancou muito dinheiro, graças ao truque de fundir algumas moedas de prata, para criar a ilusão de um fabuloso tesouro.
Seu empreendimento mais notório foi na virada do século, uma fábrica de cigarros, onde empenhou as heranças do pai e do avô. Na época, já existiam quatro manufaturas de fumo em Pelotas, todas com nomes de santos. A ousadia de Simões Lopes Neto o conduziu pelo caminho inverso, registrando a empresa como “Diavolus”. Não contente com a irreverência, ilustrou as carteiras de cigarros e os anúncios de jornal com a figura do demônio, de rabo em pé e soltando fumaça pelas ventas. Era demais para a conservadora Pelotas de 1901.
A audácia causou um sucesso inicial, com filas de pessoas querendo provar a novidade. Mas em pouco tempo, uma onda de boatos tomou conta da cidade, gerada não se sabe de onde. A população passou a comentar abertamente que a Igreja Católica preparava o ato de excomunhão do escritor. E que os fumantes da “marca do diabo” igualmente não seriam poupados – estavam todos condenados ao fogo do Inferno. Obviamente, a empresa não sobreviveu e cedo fechou suas portas.
Conta meu amigo livreiro que as pessoas não queriam andar com o diabo no bolso, com o rabo em pé e soltando fumaças pelas ventas.

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