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Comendo lenha e soltando brasa

“Na estação deserta, Quando apenas sentara para descansar um pouco! A Morte chegou na sua antiga locomotiva (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…).” Mario Quintana …

“Na estação deserta, Quando apenas sentara para descansar um pouco!

A Morte chegou na sua antiga locomotiva (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…).”

Mario Quintana

 Ele era ainda um auxiliar de foguista, quando viu a grande multidão aplaudir a saída do primeiro trem de Porto Alegre para a viagem até Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. 600 quilômetros de lonjura! Muitos anos depois, Manoel Seixas veria seu sonho virar realidade – promovido a maquinista, assumiu o comando da 605, a mais nova locomotiva da Viação Férrea. Sua primeira viagem foi de festa, transportando autoridades, inclusive o presidente do Estado, para inaugurar as novas estações da estrada de ferro.

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Agora, quase chegando a hora de se aposentar, o velho maquinista desde muito perdera a conta de quantas vezes fizera aquela mesma jornada. Os cenários haviam mudado – novas cidades nasciam aqui e ali, mas a emoção de lançar a grande locomotiva negra através do verde de campos e coxilhas continuava igual à dos primeiros dias. Ele ainda mantinha o velho hábito de apitar três vezes antes de chegar a cada cidade, avisando o chefe-de-estação que havia passageiros chegando e cargas a desembarcar.

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Também – para passar o tempo – gostava de cantarolar baixinho, deixando-se embalar pelo taque-taque das rodas nos desvãos dos trilhos. Houve um tempo em que sabia o nome de cada passageiro que viajava em seu trem. Na maioria, caixeiros viajantes carregados de amostras ou famílias que iam à Capital para um velório, um batizado, uma consulta na Santa Casa. Porém, os tempos haviam mudado tudo. Muita gente preferia os novos ônibus que rodavam pelas estradas, mais rápidos e confortáveis. E o vagão de carga agora andava quase sempre vazio. Uma ou outra encomenda de charque ou peça de trator, mas nada mais além disso.

Manoel Seixas sentia que os bons tempos haviam ficado para trás. Colecionara boas recordações das viagens para a fronteira e tantas estórias que ouvira dos passageiros e dos antigos chefes-de-estação. Estórias que nunca foram escritas e que, aos poucos, caiam no esquecimento.

Como a do ramal perdido no meio do mato, na subida da Serra, do qual contavam coisas estranhas. Era para ser um desvio para trens de carga, mas um pântano infestado de mosquitos atrasou tudo. Os operários tiveram malária e muitos morreram antes de chegar ao hospital. As obras foram abandonadas e o lugar ganhou fama de mal-assombrado. Dizia-se que, à noite, ouviam-se batidas de marretas nos trilhos enferrujados.

Mas a estória mais assustadora era a do trem fantasma, que surgia nas madrugadas, iluminando os trilhos e assustando o sinaleiro, que dormia nos fundos da estação. O homem acordava, acendia sua lanterna vermelha e corria para a plataforma. Mas não havia sinal do trem, a não ser o cheiro forte de carvão e os ganidos dos cachorros da vizinhança.

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O maquinista Seixas não levava assombrações a sério, até que conheceu dona Florinda. Ela viajava todos os meses a Porto Alegre, para consultar um médico de nervos. O filho, cheio de cuidados, sempre pedia ao chefe-do-trem para olhar por ela. Contrafeito, ele ia falar com o velho Seixas. Que também não se agradava daquilo. Limpava a graxa das mãos e ia conversar com a passageira. Ouvia com paciência seus queixumes e depois voltava para o seu posto na locomotiva. Mas ficava matutando nas coisas que ouvia. Dona Florinda só falava de aparições e fantasmas. Contava que há 50 anos morava junto à linha férrea, onde havia visto cousas que até Deus duvida.

Ela jurava – com voz firme – que o trem fantasma aparecia todos os anos na Quaresma e, então, aconteciam coisas do arco-da-velha. Na manhã seguinte, todos os cavalos tinham um nó na cauda e tranças nas crinas. Seixas ouvira muitas outras coisas, difíceis de acreditar. Mas houve um caso que pegou o velho pelo gorgumilho. E, depois disso, cada vez que passava pelo lugar, um tal de Arroio de Dentro, se benzia, não uma nem duas, mas três vezes.

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Era uma cidadezinha sem importância, onde o trem parava só dois minutos. Uma pequena estação, bem ao lado de um cemitério abandonado, onde, diziam, havia índios enterrados. Uma noite, músicos de uma banda, que esperavam pelo último trem, resolveram fazer uma serenata para os mortos do cemitério. Tocaram, cantaram e se divertiram bastante – com a ajuda de uma garrafa de cachaça. E quando terminou a música, algo muito estranho aconteceu. Do escuro do cemitério, ouviu-se claramente o som de palmas. Quando o trem chegou, os músicos estavam mudos, mostrando o branco dos olhos.

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Lá no alto da 605, o velho Seixas continuava para cima e para baixo, esperando a hora de se aposentar. E para disfarçar o medo, cantarolava baixinho:

“O trem danou-se por estas brenhas

Comendo lenha e soltando brasa

Tanto queima como atrasa.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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