Como uma "cebola", a opinião pública é composta por camadas

Por Elis Radmann

Trabalho cotidianamente ouvindo as pessoas. Compreendendo seus sentimentos, suas visões de mundo, suas expectativas e dores. 

Nesse momento, sou muito questionada sobre o ânimo da opinião pública, sua percepção e tendências, diante de tudo o que está acontecendo.

A opinião pública é, por essência, composta pela diversidade social e pelo multiculturalismo. Poderíamos usar a figura de uma "cebola" para representar a opinião pública. Quando cortamos a cebola vemos muitas camadas, cada camada com uma certa uniformidade e independência entre si. Figurativamente, podemos pensar na sociedade como uma "cebola", por camadas.

Cada camada é formada por uma cultura, pela influência de uma região, pelos valores da família, pelas condições econômicas, pela educação, pelas experiências vividas e pela ideologia. A opinião pública é constituída por vários subgrupos de opinião.

Para exemplificar, imagine uma pesquisa de opinião com jovens de 18 anos. Nesse exercício a "cebola" seria o segmento de 18 anos. Poderíamos pensar na seguinte pergunta: nesse momento, qual seria o seu objetivo de vida? 

O jovem de 18 anos na classe E, objetiva ter a comida na mesa. O jovem de 18 anos da classe D, gostaria de dinheiro para pagar uma conta de sua casa, o jovem de 18 anos da classe C gostaria de um emprego, o jovem de 18 da classe B gostaria de passar no vestibular e o jovem de 18 anos da classe A, pode estar pensando na carteira de motorista e no carro novo. Pela natureza da juventude, a maioria pensa em sair de casa, espairecer a cabeça ou dar um rolê com os amigos. E aqueles que têm familiares doentes pensam na recuperação dos mesmos. 

Esse exercício é só para ilustrar que precisamos ter sensibilidade para compreender e entender a opinião, a dor ou o sentimento do outro. Nesse momento de exacerbação da pandemia, cada um está preocupado com o seu problema, com a sua necessidade, com a sua realidade conjuntural. Cada um quer empatia consigo, em um momento que precisamos de empatia com o todo.

E o "todo" é o grande tema desta reflexão. O todo é a "cebola" na íntegra, com todas as suas camadas. E o coletivo, é o bem comum e o interesse público. Vivemos um momento em que precisamos ter uma meta coletiva, um propósito de sociedade que una todas as camadas da cebola.

A analogia da "cebola" também pode ser usada para pensarmos na organização política. Na constituição de nossas lideranças, em todos os níveis, desde as representativas, que possuem cargo eletivo, até as lideranças do setor produtivo e dos trabalhadores.

Precisamos que o propósito esteja acima do interesse dos líderes. Precisamos que os líderes se unam em torno da vacinação, da preservação da vida e da economia. Um depende do outro, não há trabalho sem saúde. 

Cada um precisa sair da sua camada e trabalhar pelo todo da "cebola". Em tempos digitais, poderíamos dizer que cada um precisa sair de sua "bolha"!

Como sociedade, sempre oscilamos entre a ética (decisão impessoal) e a moral (decisão pessoal). Mas, neste momento, por toda uma conjuntura cultural, estrutural e política, a moral está dominando e o interesse pessoal tem falado mais alto do que o interesse público. Temos que ter a consciência de que estamos em uma guerra contra um inimigo invisível e que todos estamos no mesmo lado. Somos parte da mesma "cebola".

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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