Assisti ao jogo do Grêmio contra o Caxias há duas semanas.
Não para secar o Grêmio, nada disso. Assisti porque gosto de ver um bom jogo de futebol. De saída fiquei impressionado com a velocidade, o toque de bola, a precisão dos passes e a letalidade do chutes a gol do Caxias. O que era aquilo? Uma máquina impiedosa de fazer gol. Então veio o segundo tempo e o empate. O fim do jogo, a decisão nos pênaltis e o meu coração se apertou. Eu não estava secando, como já disse. Estava apenas torcendo para o melhor time em campo, que, de fato, foi o Caxias. Na decisão por pênaltis o Caxias se apequenou? Voltou a ser só o esforçado Caxias? Não. O que assisti foi o mais espetacular exemplo de time que já vi. O Caxias tem inteligência coletiva, como as formigas. Não precisa combinar nada, eles entram jogando por telepatia e fazem o serviço. Mas, e quando o jogador solitário se encaminha para bater um pênalti que decide tudo? Vi, um por um, os jogadores do Caxias caminharem para a bola, como se fossem em direção ao cadafalso, para morrer. Senti pena. São bons, talentosos, mas o maldito complexo de inferioridade surgiu do fundo das trevas e os derrotou. Cairam diante da torcida numerosa do adversário, contudo, eles se autoderrubaram, como os automóveis quando capotam por falha mecânica. (Essa foi braba).
Outro exemplo de complexo de inferioridade: numa palestra de uma psicanalista (celebridade na época), o auditório da Assembléia Legislativa estava lotado porque, logo a seguir, iria falar ninguém mais ninguém menos do que Luiz Carlos Prestes. A apresentadora gastou uns três minutos lendo o robusto currículo da doutora. Porém, quando a ilustre palestrante começou a falar, sua voz foi baixou de volume, tornou-se aspirada, e, depois, absolutamente inaudível. Como assim? Deu um branco na oradora? Acho que não. Antes de começar ela havia comentado sobre a lotação da platéia, era verdade, tinha gente sentada no chão, gente de pé, se acotovelando pelo melhores lugares. Aquelas pessoas foram lá porque era a última oportunidade de ver Prestes vivo. Havia centenas de jovens e gente de todas as idades. A psi não tinha a menor ideia de que o velho comunista iria arrastar aquela multidão e aquilo, de algum modo, a assustou. Algo em seu inconsciente despertou, algo sombrio e temível para ela. Um antigo trauma? Um velho complexo?
A palestrante empalideceu, tomou um gole de água e moveu os lábios sem conseguir articular nenhuma palavra. O silêncio era brutal. De repente, todo mundo começou a aplaudir a doutora, como se a multidão tivesse decidido ir buscá-la no fundo de um buraco negro. E funcionou. Ela começou a falar com sua voz alta e clara, e fez uma riquíssima exposição sobre o que ocorreu com ela. Deu um show de humanidade e competência profissional.
E quanto à fala do Barack Obama no Teatro Municipal no Rio, vocês viram? O presidente americano tomava um gole de água e a platéia aplaudia. Obama era interrompido pelas salvas de palmas a cada 30 segundos. Um exagero. Me senti levemente constrangido, com impressão de que baixou um espírito vira-lata na platéia. Não só vira-lata, de índio também. De bugre, inocente, bobo, a fina flor desta herança primitiva, da cegueira, do fascínio, deste encantamento infantil com espelhinho, com faca afiada, com um e noventa e nove. Ainda bem que Dilma nos representou, com o queixo ligeiramente erguido e o olhar sereno, enquanto a boca sorria o seu melhor sorriso diplomático.
Esta presidenta é um trilho de trem quando quer ser. No bom sentido, é claro. É bom que seja, para o trem da economia passar sem solavancos.

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