Chato é o sujeito que você pergunta como vai e ele começa a explicar.
Millôr Fernandes 1924/2012
Contabilizei algumas omissões minhas em relação à perda de tempo e resolvi agir em defesa desse meu patrimônio invisível. Isto, em parte, me remete à segunda infância e à juventude quando a quase totalidade do tempo livre era dedicado à leitura.
Hoje, família, amigos, piscina, musculação, bocha e artes completam o cardápio de que já não tem muito tempo para degustações.
Lembro-me de eras remotas quando a coisa mais parecida a uma rede social era aquele serviço das quermesses e o rapaz de cabelos loiros dedicava uma música, pelo alto-falante, à mocinha de blusa cor-de-rosa.
Auditorei o uso de meu tempo e acabo de concluir que facebook e congêneres estão fora do meu universo de interesses.
Livro-me, assim, não apenas de fotos de bebês fofos, mas de assuntos que não me despertam – e nem despertarão – qualquer interesse.
Chega de ser moderno às custas de perder um pouco do hoje que pode ser gratificado com coisas eleitas, desejadas e escolhidas que beneficiam o ato de viver.
Minha vida não é tão despida de interesses que necessite de uma linha auxiliar.
Tenho um leque de consumo para coisas do espírito num estoque preferencial e não me vinha dando conta que as 24 horas do dia não são elásticas, além de inegociáveis. Tempo não é dinheiro, mas é vital e é o único bem que se possui que, quando perdido, não se resgata.
Por outro lado, como não sou gênio e nem tenho “mensagens à Garcia”, não me sinto com a responsabilidade ética de compartilhar minha ignorância. Se alguém precisar de conselho meu, sem pedir, morre desaconselhado.
O súbito alerta de que não adianta chorar o leite derramado obriga-me a não derramar mais leite.
Cheguei à conclusão que, em sendo impossível fugir das compulsórias salas de espera – túmulos do tempo –, é possível, como já fiz com o celular, despedir-me das redes sociais sem perder minha conexão com o mundo. E as salas de espera podem ser úteis gabinetes de leitura, assim como os cartazetes dos bondes foram os meus primeiros livros.
Enfim, a partir de hoje estou à disposição – como sempre – mas só em conexões diretas em [email protected] Termino sem pudor de plagiar Drummond:
E como ficou chato ser moderno
Agora serei eterno.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a última coluna)
Honey. Boa, tua última crônica, não foi dor crônica, e sim a crônica da chrônica, no sentido original, já quase arcaico. Carinho, Vera (Verissimo), psicóloga e termômetro desregulado de qualidade, Porto Alegre, cidade em festas de aniversário
Meu querido Mario, mais uma vez, genial. Você se supera quando nos surpreende brincando com as palavras e com os neurônios da gente. Você sai de um nada, de um grão de areia, de um sopro pequeno de vento, de um átimo, e vai fazendo uma tessitura de brincadeiras agregando conhecimento, cultura, informações, ritmo, construindo formações e de repente dispara o mote. Brilhante. Às vezes fico pensando como que a vida seria insípida se não fosse você. Isnard (Manso Vieira), publicitário, jornalista, Rio.
Te ler nesta madrugada foi ótimo. Obrigado, amigo eterno e leal. Abu (Antonio Abujamra). Artista multimídia, São Paulo, 4h02m
Jovem Mario, o sempre lúcido. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife
Valeu, Mário! Abração, Nei (Leandro de Castro), escritor, publicitário, Rio
Grande Mário.
E sempre com satisfação que recebo as tuas inteligentes e interessantes cronicas. Não deixe nunca de faze-las e de encaminhá-las aos mortais de tua extensa rede de admiradores.
Há um tema que, entendo, pode fugir, até muito, da tua linha, mas que é um mal antigo, enraizado, que prejudica milhões de pessoas honestas em nosso país: A morosidade de nosso Judiciário.
Já escrevi para centenas de representantes do Judiciário e do Legislativo a respeito, mas, infelizmente (espelho do nosso país, que insistem em querer que seja subdesenvolvido), não recebi qualquer resposta. Um grande desrespeito. Aliás, mais um.
Muitas vezes, já li ou ouvi do próprio Judiciário que as leis são seguidas e que as decisões são técnicas. Mas, as leis não falam ou determinam que os processos devam levar anos ou décadas para que sejam concluídos. Há muitos procedimentos do próprio Judiciário que fazem com que a morosidade exista.
Com isso, os bandidos, os marginais, os safados, os criminosos, os estelionatários, etc., continuam a usufruir das benesses do Judiciário e dos resultados materiais de seus crimes.
Achar que o legislativo vai fazer alguma coisa é piada. Eles não têm interesse porque seriam os principais prejudicados. Logo, … estamos “fudidos” ou “fodidos”, como preferir.
Voce ve alguma chance disto ser resolvido? Melhorado? Qual? Como?
Sorry pela falta do circunflexo, mas, o Incredmail, embora interessante, tem as suas falhas.
Um grande abraço.
Marco Mazzoni, Rio.
Marco, doutor em Informática: a crônica que você sugere você mesmo escreveu. Assino abaixo. Quanto à chance de soluções, desde há muito minha cidadania está submarina. Não acredito mais neste país. Otimismo tem que ter chance, o que não é o caso. Abração. Mario


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