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Contrariedade

Não se conformava em haver morrido. Nada contra a morte, coisa natural e mais que sensata. Sempre defendera que uma única vida era uma …

Não se conformava em haver morrido. Nada contra a morte, coisa natural e mais que sensata.

Sempre defendera que uma única vida era uma das coisas sábias da natureza, mas considerava a vida no Terceiro Mundo – Brasil, no caso – uma grossa safadeza.

Por conhecer importantes centros culturais, achava de extrema perversidade essa loteria geográfica que já condena, logo no nascimento, bilhões de pessoas ao universo da ignorância.

Longe de ser ariano, gostaria que houvesse um código de ética entre os espermatozóides, ou seja, uma autodefinição de seus limites e alternativas.

Um esperma, em direção aos óvulos, seria orientado para prosseguir ou receber um grande Stop. Resumindo: nas Américas, por exemplo, se esperma e alvo não fossem da raça vermelha, Stop. Nada de prejudicar os pulmões do Planeta nas ações predatórias e destruidoras típicas dos alienígenas culturais.

Agora, ainda que morto, trazia as narinas impregnadas do fedor das lagoas poluídas em torno de sua última morada. Lembrou-se de uma de suas manifestações de humor crítico: no lugar do seu CEP, colocava uma frase esclarecedora – “siga o fedor que você chega (lá?)”.

Sempre que pensava numa daquelas lagoas que conhecera multicolorida pelo pessoal praticando wind surf, suspirava. Tentou suspirar e descobriu que morto não suspira, mas pensa o suspiro. Pensou o suspiro.

Sua indignação contra a sua morte – sabia -, tinha absoluta certeza, não era contra a morte. Sempre aceitara a morte e, agora, mesmo morto, não via outra solução racional: quem nasce tem que morrer. A vida nasce condenada e isso, além de óbvio, é a solução. Ponto final.

A sua morte – pensou – se existe praga, foi praga. Aprendera que o homem inventou o automóvel sem inventar a cidade com automóvel. Era vítima dessa não-invenção.

Esse animal, não satisfeito em assassinar florestas, impregnou o urbano com tóxicos e tóxicos. E dê-lhe caminhões, motos, carros, ônibus… Trocou-se a bosta dos cavalos e bois pelo monóxido de carbono.

Essas coisas aumentavam a sua contrariedade com o jeito que a morte resolveu livrá-lo da vida.

Quando viu o caminhão em sua direção, percebeu que ele estava desgovernado. Num milésimo de segundo parecia que estava no clube, jogando-se na piscina. Belo mergulho, lembrando a largada nos 100 metros nado livre. Seu peito não chegou ao asfalto. Uma moto pegou-o em pleno vôo e levantou-o ainda mais, como se saísse da prancha, num salto ornamental.

A memória do acidente acabava aí, em pleno vôo. Talvez fosse uma delicadeza da morte. Uma homenagem a quem sempre defendera a sua existência?!

Olhou para ver como ficara o seu corpo (sic) e nada. Pensou o corpo e também nada. Descobriu que podia pensar algumas coisas. Outras, nem adiantava pensar.

Quando criou uma frase mais elaborada, percebeu o estigma da profissão. Todos os ofícios de sua vida tinham sido com as palavras e ele, mesmo morto, carregara vestígios. Estigma é estigma…

Adivinhou que seus pensamentos, se prosseguissem, não ganhariam o papel, iriam para o limbo, ou algo parecido. Preferia assim.

E pensou outro suspiro.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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