Coopítulo 11 - Das pessoas e das lutas

Por José Antonio Vieira da Cunha

'Hoje' foi um vespertino criado no final de 1974 pela empresa que editava o jornal Zero Hora. Pretendia fazer um embate com a Folha da Tarde, da concorrente que editava o Correio do Povo, mas não durou um ano. Quando fechou, um grupo de oito ou dez da redação extinta bateu às portas da Cooperativa dos Jornalistas à procura de trabalho. Lembro bem do encontro com eles, impacientes como todo jovem sabe ser, que não demoraram a aceitar a argumentação de que não havia oportunidades de trabalho naquele momento.

Elaine Lerner estava entre eles e era das mais contundentes na cobrança de uma solução imediata. Que não surgiu ali, mas alguns meses depois, quando foi orientada a procurar a Rosvita Saueressig, nossa poderosa chefe de Redação. Era dia 13 de abril de 76, seu aniversário de 22 anos, quando ouviu o sim de Rosvita e iniciava-se ali uma competente dupla que liderava o processo de fazeção editorial. Mais tarde ela me diria: "Saí cinco anos depois com algumas certezas. Nunca havia conseguido me posicionar politicamente por medo de falar, trabalhei muito e com muito gosto, fiz belas e duradouras amizades. Não viajei pelo mundo como havia planejado, nem me tornei repórter do Coojornal. Em compensação, vivi e ajudei a construir um dos projetos mais importantes reunindo jornalistas brasileiros na década de 70".

Num documento sem data que resgatei, um registro do dia a dia feito pelo Luiz Afonso Franz, que também chefiou com maestria o setor no tempo em que foi denominado de Central de Serviços, testemunhava esta passagem da Elaine. Ao relatar providências que entendia urgentes, Franz relatou: "Um problema é nossa excessiva dependência da Elaine, competentíssima, que edita tudo menos duas publicações, e está de saco cheio. Não podemos prescindir dela e precisamos para isto bolar meios de motivá-la".

Também do falecido 'Hoje' surgiu um jovem, Marco Antonio Schuster, procurando por vaga no Jornal do Inter. "Quatro anos e muito texto copidescado e reescrito depois, quando saí eu era um repórter que tinha trabalhado em publicações de futebol, agricultura, arquitetura, cooperativismo, sindicalismo, construção civil, seguradoras. Até briefing para ilustradores aprendi a fazer".

Era assim, na rotina trepidante de se editar diferentes publicações, que se forjavam profissionais que viriam a deixar marcas importantes na imprensa. Cooperativados como André Pereira, dono de um dos mais primorosos textos do jornalismo, que ouviu histórias de colegas que trabalhavam lá e registrou em uma reportagem que o próprio Coojornal publicou. Ao discorrer sobre o que seria ser repórter dentro da cooperativa, historiou as dificuldades vividas até no enfrentamento com colegas de redações convencionais, que questionavam o formato de trabalho. "Ouvi frases tipo cadê o profissionalismo?", escreveu.

Trabalhar na Coojornal "não é jamais ser um simples repórter como acontece nos diários em que nossa tarefa termina quando entregamos a matéria ao chefe de reportagem", registrou André. E destacou que este aprendizado passava também por legendar, titular, atuar junto ao diagramador, participar da escolha de fotografias e brifar o ilustrador. Sem contar ações como ser motorista em viagem ou, prosaicamente, participar de uma capina no pátio da cooperativa, por que não? 

Seu texto também lembrou das dificuldades objetivas, como uma remuneração vinculada ao pagamento a ser feito pelo cliente da publicação terceirizada, uma tabela pouco clara de remuneração pelos free-lancers, mas destacava sempre o espírito de colaboração permanente que flutuava naquele ambiente. E havia atrasos de pagamentos, mas ninguém se queixava, como depôs a inesquecível Lillian Bem David, diagramadora pioneira na cooperativa. "Todo mundo entendia que havia um objetivo maior a ser alcançado."

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Houve um período em que a 'Central de Serviços' editava mais de 30 publicações, entre jornais, revistas e boletins. Entre estes estavam os jornais mensais Boa Nota, para uma caderneta de poupança; Jornal da Gente, para a Imcosul, na época o principal magazine do estado; e O Gaúcho, para o SESI, que chegou a atingir a extraordinária tiragem de 300 mil exemplares. A revista mensal Agricultura & Cooperativismo tinha uma redação própria, assim como o Jornal do Inter e o Jornal do Grêmio - este editado por Emanuel Gomes de Matos e o colorado dirigido por um gremista, o Flávio Dutra. A convivência harmônica, como se vê, era um dos baluartes da cooperativa em seus melhores momentos. Havia ainda a Agência de Notícias Coojornal, entre tantas iniciativas que em determinado momento garantiram que cerca de uma centena de profissionais tivessem na cooperativa uma importante, se não a principal, fonte de remuneração. 

 
 
Algumas das dezenas de publicações da Central de Serviços
Crédito: Reprodução
 
 
 
 

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há quase 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem três netos.

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