Coopítulo 12 - Testemunhos reveladores

Por José Antonio Vieira da Cunha

Entre tantos depoimentos sobre aqueles momentos iluminados da Cooperativa dos Jornalistas emociona o da Lilian Bem David, uma doce criatura que se foi cedo demais. Era diagramadora desde o primeiro dia, e louvava o fato de que o setor cresceu profissionalmente, como uma área de planejamento, e com isso ela se sentia maior e melhor. "Provavelmente em nenhum outro local eu poderia ter um trabalho tão diversificado", pensava Lilian. "Apesar de toda a correria e confusão" que ainda acontecia de vez em quando, dizia ser compensador "trabalhar entre pessoas amigas e não um lugar onde um patrão carrancudo me manda parar de tomar tanto cafezinho".

Lilian teve em Elaine Lerner e Marina Wodtke duas grandes amigas, uma eterna amizade que começou ali nos espaços da Coojornal. Enquanto Lilian e Marina estavam lá desde o início, Elaine ainda demoraria um pouco para chegar devido a, dizia ela, uma certa timidez que a impedia de se aproximar dos colegas da recém-fundada cooperativa. "Um dia vou lá", pensava, até que fechou o vespertino 'Hoje' e sobrou-lhe coragem para enfrentar a nova realidade. Durante muito tempo o trio foi responsável pela reportagem e edição de muitas publicações terceirizadas, aquelas comentadas no coopítulo anterior. Quando se recorda daqueles momentos, Marina diz que se sentiu impulsionada "por uma coragem imensa e um idealismo maior ainda. Foi um privilégio ter convivido com esses jornalistas tão especiais".

Mais ou menos por esta época, meados de 1975, Flávio Dutra foi convidado para ser editor do Jornal do Inter, que já estava na quarta ou quinta edição. "O convite, logo aceito, agregou ao meu entusiasmo o interesse em aprender a editar", ele registra, em um breve depoimento que me enviou. "À época, era redator na editoria de Esportes da extinta Folha da Tarde, uma função que compreendia, na verdade, a edição, só que eu ficava devendo para os dois outros redatores, os talentosos Nilson Souza e Alberto Blum. Por sorte, o meu grande mestre na Coojornal foi o Elmar Bones, o Bicudo, que era uma espécie de editor-chefe das publicações e muito exigente, especialmente com o foca da edição, que passava as tardes na sede da Comendador Coruja, tentando dar conta das páginas do Jornal do Inter, com diagramação da graciosa Graça Guindani - a redundância é proposital porque verdadeira. Participei de meia dúzia de edições e lembro que o presidente Vieira da Cunha ficou de nariz torcido comigo quando comuniquei a ele, naquele espaço que dividia a Folha da Tarde da Folha da Manhã no segundo andar da Caldas Júnior, que pretendia deixar a função e enveredar para outros aprendizados. Nada que abalasse nossas relações futuras."

Flávio relembra uma particularidade muito dele, a de ser remunerado por "uma espécie de escambo: eu prestava serviço em troca das cotas de participação na Cooperativa". Importante, segundo ele, é destacar que o Jornal do Inter era totalmente independente do clube, tratando dos assuntos de interesse da torcida colorada e não dos dirigentes, "tanto assim que era editado por um profissional gremista, no caso este que vos fala. Claro que essa situação causava desconforto e críticas de parte dos dirigentes colorados, mais ainda devido a uma das últimas edições da qual participei e que estampou a manchete 'É o fim do supertime?'. Mas as contrariedades não evoluíram e o Jornal do Inter teve ainda uma sobrevida, sem seu editor gremista".

Foi atrás de uma vaga neste Jornal do Inter que chegou lá o jovem Marco Antonio Schuster, também órfão com o fechamento do Hoje. "Fui imediatamente conquistado pelo projeto da cooperativa e me associei", ele relembra, atribuindo a afinidade ao diálogo permanente que havia nas reuniões de pauta, longas mas ricas em debate. Schuster festeja inclusive o fato de que se tinha "a mesma paixão ao debater a nossa cooperativa. Talvez hoje se diga 'o negócio'. Como deveria ser a gestão, para quem deveríamos fazer house-organs, como os funcionários poderiam participar das decisões, a escala salarial, a postura política. Nelas, fomos todos democratas incansáveis. Às vezes, quase inconciliáveis".

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Outro dia, lamentei o fato de não ter, em minha coleção de Coojornal que acreditava completa, os números 2 e 8. Ambos são da fase em que a publicação era ainda um boletim interno da cooperativa, o que explica porque - pelo menos até o momento - ninguém atendeu a meu apelo para enriquecer este acervo muito pessoal. Flávio Dutra também faz um apelo semelhante: diz que a única frustração da sua participação nesse recorte da história da Coojornal é que até hoje não conseguiu resgatar uma edição sequer do Jornal do Inter. Diz que quer incluir a publicação "no futuro Memorial Flávio Dutra". Daí, seu apelo: "Se alguém aí puder minimizar a frustração de um editor aposentado, topo qualquer escambo".

Elaine, Marina e Lilian: um trio vencedor

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há quase 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem três netos.

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