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Coopítulo 16 – Um jornal de memórias

Por José Antonio Vieira da Cunha

O Coojornal se caracterizou por ser um jornal memorialista, um caso talvez inédito na imprensa brasileira do século 20. Resgatou vários episódios da história regional e nacional, com eles dando alguns verdadeiros furos jornalísticos, como o relato sincero e detalhista do coronel Jeferson Cardim Osório sobre a tentativa de resistência armada ao golpe de 1964. Ou o diário do general Oympio Mourão Filho, relatando os primeiros movimentos que levariam àquela ditadura de 21 anos. 

Pode-se dizer que esta inclinação memorialística teve sua origem em um episódio bem factual, o enterro do ex-presidente João Goulart, em dezembro de 1976. Jango morrera no exílio em Mercedes, Argentina, onde viveu seus últimos três anos, depois de um exílio de 10 no Uruguai, e o translado de seu corpo até São Borja, terra natal onde seria sepultado, transformou-se, para profundo incômodo do regime militar, em uma grande e espontânea manifestação popular.

O mensário mobilizou uma equipe de peso para acompanhar esta mobilização e o sepultamento do ex-presidente. A São Borja foram o editor Osmar Trindade, o repórter Caco Schmitt e os fotógrafos Assis Hoffmann e Jacqueline Joner, esta responsável pela foto espetacular que enobreceu a capa da 11ª edição. O trabalho teve o apoio do irmão mais velho de Osmar, Riomar, que morava no Rio de Janeiro e, em Porto Alegre, de Rosvita Saueressig, Marco Antônio Schuster e Elaine Lerner.

O trabalho todo foi coordenado e orientado por Elmar Bones da Costa, o Bicudo, editor-chefe do Coojornal e seu pensador por excelência. Elmar registrou que o governo fez de tudo para minimizar o impacto da morte de Jango: impediu que o corpo fosse levado a Brasília e tentou proibir manifestações no enterro em São Borja. “A imprensa agiu de acordo, foi pífia a cobertura”, relembra Elmar. “Aquela matéria de capa marcou o caminho a seguir, investir na reportagem, na cobertura que a grande mídia não queria ou se sentia constrangida a fazer.”

No livro ‘Um Acordo Forçado: o Consentimento da Imprensa à Censura no Brasil’, a historiadora norte-americana Anne-Marie Smith reflete que a grande imprensa foi complacente com a ditadura militar. E quando Jango morreu, ainda vigorava este acordão dos grandes grupos de imprensa com o regime para que fosse levantada a censura. Era quase um jogo de faz-de-conta: o regime não censurava, mas os jornais não passavam dos limites. Na sua crítica à imprensa brasileira da época Anne-Marie não poupa nem mesmo ‘O Pasquim’, que vendia então 200 mil exemplares. Ela considerava o semanário “sexista e sistematicamente racista”, mas também registrava que os “tablóides sensacionalistas, a imprensa nanica, com suas fotos macabras e manchetes exageradas cobriam mais das verdadeiras notícias do que os reputados grandes jornais”.

Neste vácuo navegou o Coojornal, ainda longe dos holofotes dos censores e repressores. Assim, mais do que simplesmente noticiar o fato por si só histórico, acompanhou os desdobramentos políticos, investigou a fundo a vida de Jango e acabou por revelar que, além de uma imagem imprecisa e algumas lendas, “o verdadeiro Jango era aquele que poucos conheciam”. Um trecho do trabalho jornalístico:

– Em São Borja, a lembrança que ficou de Jango é mais a de um homem humanitário preocupado com os pobres, principalmente os da sua terra, do que a de um político que a partir de 1945 participou de quase todos os momentos decisivos da política do país. Como presidente filho de São Borja, que também está morto, ele é lembrado junto com Getúlio Vargas e Pedro Aramburu (que chegou à presidência da Argentina). 

***

A dedicação a temas relevantes enquanto fatos históricos levou um grupo de associados da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, não necessariamente atuantes na redação do Coojornal, a criar um Núcleo de Jornalismo Histórico. Dedicavam-se a estudar fatos históricos, realizar encontros com historiadores e pesquisadores, e destas iniciativas nasceram algumas das mais impactantes reportagens deste meio histórico. Ainda passearemos por algumas delas.

Edição 11: começam os registros históricos no Coojornal

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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