Coopítulo 6 - Além de uma confusão

Por José Antonio Vieira da Cunha

Resgatar a memória da Coojornal não diz respeito apenas ao grupo de jornalistas que a criou e desenvolveu, mas à própria história da imprensa do Rio Grande do Sul. A Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre resultou de uma reação a uma situação que oprimia toda a imprensa brasileira, naqueles tempos sombrios em que a ditadura militar estava em seu auge. Os jornalistas estavam insatisfeitos com o modo como tudo se processava, com o medo que inevitavelmente corria pelas redações em relação à censura e às ameaças, geralmente veladas, de repressão e mesmo violência.

Por tudo isso e porque, cada vez mais, a imprensa é fonte confiável a que recorrem os pesquisadores e historiadores, é importante evitar que prosperem equívocos repetidos em artigos e reportagens, tanto assinados por jornalistas respeitáveis como em ensaios acadêmicos.

Assim, corrijam-se as versões enviesadas que vicejam por aí. Uma delas, grave, é o entendimento de que a cooperativa nasceu a partir da demissão de 21 jornalistas da Folha da Manhã, um dos três diários do grupo Caldas Júnior, versão tão difundida a ponto de levar ao engano mesmo jornalistas que conviveram com a própria cooperativa. Então: não foi de uma crise na Folhinha, esta ocorrida em outubro de 1975, que surgiu a cooperativa ou o Coojornal. Relembrando, a cooperativa foi fundada um ano antes, em agosto de 1974, e o primeiro exemplar do Coojornal, que circulou como boletim em novembro de 1975, trazia entre seus destaques exatamente a notícia daquela crise.

Registrou o Coojornal, sobre as mudanças na FM: "Em uma semana, a partir do dia 15 de outubro, deixaram o jornal o diretor-responsável, Ruy Carlos Ostermann, o secretário de redação Osmar Béssio Trindade, o chefe de edição Vitor Hugo Sperb, editores, redatores e outros, num total de 21 pessoas (numericamente, quase um terço da redação)". A causa era uma matéria policial publicada no jornal que desagradara aos governantes de plantão. Cobrada, a direção da empresa pediu a cabeça do autor, o repórter Caco Barcellos.  Em vez disso, o secretário Trindade, a quem estava afeta a editoria de Polícia, entregou seu pedido de demissão, o que levou ao dominó seguido por duas dezenas de colegas.

Portanto, na origem da Cooperativa dos Jornalistas não está o ímpeto de um grupo de desempregados. Ao contrário, foi bem madura a decisão por sua criação, como vimos nos coopítulos anteriores, e com motivos e fundamentos bem definidos por seus fundadores, a saber:

  1. A possibilidade de obter-se uma melhoria da condição econômica de cada um, através de uma melhor remuneração;
  2. A possibilidade de exercer-se um debate permanente e democrático sobre o trabalho jornalístico, inviável e inadmissível nos veículos convencionais; 
  3. O ceticismo do meio profissional em relação a seus jornais e à orientação de suas linhas editoriais; e
  4. A possibilidade de os jornalistas terem seu próprio jornal.

O editorial daquela edição pioneira do Coojornal registrava que a cooperativa dividira seu planejamento em duas etapas. Na primeira procuraria organizar-se para prestar serviços a terceiros, formando uma equipe de bons profissionais capaz de realizar qualquer tarefa no campo jornalístico. Por "qualquer tarefa" entendia-se desde trabalhos avulsos de texto, fotografia, e planejamento gráfico e editorial até a produção de jornais e revistas para empresas, sindicatos, organizações em geral.

Ali em novembro de 1975 a Coojornal já tinha quase 200 associados, um capital de 500 mil cruzeiros (cerca de 1,5 milhão de reais hoje), graças a estas novas adesões, e editava o Jornal do Inter, de sua propriedade, e cinco jornais para terceiros. Já tinha equipe permanente de editores, redatores, repórteres, fotógrafos, planejadores gráficos. 

A segunda etapa do planejamento, "que só seria desencadeada quando as metas da primeira estivessem cumpridas", envolvia realizar o sonho dos fundadores: criar e editar seu próprio jornal. 

Que seria o Coojornal, como sabemos.

                                                     ***

No episódio da Folha da Manhã, com a demissão do secretário de redação Osmar Trindade, foram solidários e se demitiram:

Ruy Carlos Ostermann, diretor responsável;  Vitor Hugo Sperg, chefe de edição; os editores Carlos Urbim, Félix Valente, João Carlos Ferreira da Silva, José Antonio Vieira da Cunha, Licínio de Azevedo; a subeditora Lenora Vargas; os redatores Dorival Pacheco, José Antonio Simch da Silva, Marina Wodke, Nei Duclós e Renato Pinto da Silva; os repórteres Caco Barcellos, Gilberto Rocha, Telmo Cunha Zanini e Vera Teresa Costa; o chargista Edgar Vasques; o cronista Luis Fernando Verissimo; e a secretária executiva Ines Bernau.

 

O Coojornal de novembro de 1975 noticia a crise
da Folha da Manhã,
ocorrida no mês anterior

 

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há quase 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem três netos.

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