Coopítulo 80 - Exemplo vencedor

Por Vieira da Cunha

Sábado passado, 6, marcou mais um Dia Internacional do Cooperativismo, evento comemorado há 101 anos, embora o movimento tenha sido criado antes, em dezembro de 1844, por um grupo de tecelões ingleses que se uniram para realizar compras em conjunto. Desde então, o cooperativismo é um modelo vencedor em nível mundial. São entes que reúnem pessoas ou profissionais com interesses comuns, estimulando a formação de rendas dos integrantes do grupo e contribuindo fortemente para criar oportunidades de trabalho nos mais diferentes ramos, da agricultura à medicina.

Foi inspirado neste movimento, em que todos têm direitos iguais, independente do capital subscrito por cada um, que um grupo de jornalistas se reuniu em agosto de 1974 para criar a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre. Já contei este início em outro capítulo, detalhando como se vislumbrou neste sistema a janela para viabilizar oportunidades de trabalho para uma categoria profissional que não identificava um futuro otimista para o setor.  

A ideia foi em frente rapidamente, embora a Coojornal tenha pago um preço alto por seu pioneirismo, visto que desde sua formação teve de enfrentar adversidades e incompreensões, a começar pelo fato de que a legislação cooperativista era basicamente adequada para o funcionamento de cooperativas agrícolas e de produção, a ponto de o órgão regulador do sistema na época ser o Incra, organismo estatal cujo objetivo prioritário era supervisionar as ações de colonização e da reforma agrária... Convencer as autoridades do setor de que uma cooperativa formada por trabalhadores que tinham como principal patrimônio o intelecto e a cultura, sem propriedades físicas como um produtor rural, foi a primeira grande dificuldade, vencida após reuniões intensas de esclarecimento e mútuo aprendizado.

Há quem defenda a ideia de que o cooperativismo é a solução para a maior parte dos problemas sociais e econômicos do mundo moderno. Há um certo exagero aí, mas não restam dúvidas de que as cooperativas são, sim, uma grande alternativa em todos os campos da sociedade. São entidades de livre associação, congregando pessoas que comungam dos mesmos interesses e estimulam o esforço de seus integrantes, compensando-os de acordo com o grau de participação de cada um.

É um modelo vencedor em nível mundial - estima-se que um bilhão de pessoas estejam integradas a ele - com sete princípios que o caracterizam desde sempre. Entre eles, a adesão livre e voluntária à ideia, a gestão democrática que assegura a participação de todos nas decisões da empresa - um membro, um voto - e a preocupação com educação. Foram estes os nortes que levaram à criação da Coojornal, a primeira do gênero no país. Aquele interesse comum que reunia a todos estava concretizado na viabilização de oportunidades de trabalho para profissionais que, no século passado como agora, não identificavam um futuro otimista para a categoria. Unidos, passaram a trabalhar para superar a falta de conhecimento do profissional jornalista para usar os meios adequados que levassem à organização e administração de seu trabalho. As quatro centenas de profissionais que ao longo dos oito anos de existência da Coojornal se juntaram aos fundadores tiveram de conviver permanentemente com esta realidade social e econômica.

Nas décadas de 70 e 80, enquanto sobreviveram, as cooperativas de jornalistas criadas no país atuaram efetivamente como importante fator para ampliar o mercado de trabalho em suas respectivas regiões. E, também é relevante apontar, atuavam como um contraponto às empresas convencionais. Afinal, era só mesmo em iniciativas como a que levou à edição do Coojornal que os jornalistas tinham efetivamente o controle sobre aquilo que produziam. Sem contar que atuavam com um enfoque editorial que priorizava questões como a defesa intransigente do direito à livre informação. E assim fizeram história.

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem quatro netos. E-mail para contato: [email protected]

Comments