Coopítulo 9 - O coração da cooperativa

Por Antonio Vieira da Cunha

Sentíamo-nos então maduros para, enfim, lançar o jornal nas bancas. Esta maturidade era assegurada pelo momento vivido pela Cooperativa dos Jornalistas ao completar dois anos e realizar mais uma assembleia geral, que elegeria nova diretoria, avaliaria a prestação de contas e decidiria os rumos para os próximos dois anos.

A assembleia, em 16 de outubro de 1976, foi antecedida por uma edição histórica do Coojornal, a última enquanto boletim, e na qual alguns cooperativados deram depoimentos sobre a natureza do trabalho que realizavam ali. Tem riquezas, pérolas, diamantes naquelas declarações espontâneas de quem se sentia muito à vontade e realizado com o que fazia.

O dia a dia nos revelou a cooperativa, expôs o diretor-executivo, Jorge Polydoro. "Não era mais um jornal que nos fazia lutar", disse, "era a possibilidade real de se criar uma ampla gama de opções para o nosso restrito mercado profissional, uma organização onde cada um tem os mesmos direitos, os mesmos compromissos, a mesma responsabilidade". E arrematou com a essência de tudo: "Onde ninguém ganha por ter dinheiro, mas porque trabalha".

Polydoro lembrou que naquele momento a estrutura estava bem definida: havia o arquivo, as redações, o departamento comercial, a gerência administrativa e financeira, o setor de circulação, os departamentos de arte, fotografia e comercial, tudo operando em dois prédios contíguos, de dois pisos cada.

Rosvita Saueressig era a secretária de redação, uma redação com a tarefa de produzir e editar mais de uma dúzia de publicações, entre jornais, revistas e boletins. Ela dissertou sobre a responsabilidade de se realizar um trabalho sério e de qualidade mesmo em se tratando de um simples boletim de oito páginas para um sindicato, por exemplo. "Em tudo isso há um desafio profissional", Rosvita ressaltou. "Não é só a ideia da cooperativa como uma instituição de trabalho comum que precisa ser compreendida e trabalhada. Também a forma de trabalho que nós nos propomos fazer necessita de uma avaliação constante."

Ser repórter ali envolvia preocupar-se tanto com a qualidade de uma matéria quanto com a estrutura que estamos ajudando a criar, testemunhou André Pereira. Repórter na cooperativa há um ano e meio, ele traçou um panorama das dificuldades e exigências que enfrentava naquela estrutura em formação, enriquecida por debates que se realizavam aos sábados ou no conselho de repórteres que se reunia religiosamente às 10h das quintas-feiras. Não se era um simples repórter, ele destacou: "Legendamos, titulamos, trabalhamos ao lado do diagramador, escolhemos fotografias com o fotógrafo ou sugerimos uma ilustração ao setor de arte".

Ouviu os colegas sobre os trabalhos que faziam ali. Marco Antonio Schuster era repórter de publicações para terceiro e entendia que a cooperativa poderia se tornar uma nova e boa opção de mercado. Lenora Vargas exaltava como fator positivo "a possibilidade permanente de discutir o que se faz e de criar coisas". Elaine Lerner, múltipla profissional que lembra André era chamada de "meia cancha", reafirmava fé no que fazia: "A Coojornal pode e deve fazer o jornalismo honesto que está faltando na grande imprensa". Marina Wodke, repórter e redatora, testemunhou o nascimento da Coojornal e disse acreditar que ali tinha de ser usada "a tática chinesa: ter paciência para se conseguir fazer alguma coisa realmente boa". E Vera Costa, editora, destacava a multiplicidade dos repórteres naquele meio, ressaltando: "O principal é que não persistimos no erro de centralizar o conhecimento profissional, mas de ampliá-lo a todos".

E tinha Luís Alberto Arteche, o repórter faz-tudo das primeiras edições do Jornal do Inter. Chegou convocado pelo colega Paulo Gerson de Oliveira e assumiu de verdade toda a mobília que lhe entregaram para carregar. Beto Arteche mesmo recordou que muitas vezes, às cinco ou seis horas da manhã, depois de levar a montagem do jornal para ser impresso na Zero Hora, aguardava os exemplares impressos para encaminhar a distribuição. O jornalismo e a cooperativa perderam o baita profissional quando Beto decidiu enveredar pela odontologia.

Tem mais, muito mais - e, claro, como sói poderia acontecer, nem tudo eram rosas, como veremos a seguir.

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Naquela assembleia de outubro de 1976 a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre elegeu nova diretoria. Me candidatei à reeleição, e o vice-presidente Luiz Cláudio Cunha, envolvido com as demandas da sucursal da Veja, optou por ser membro do novo Conselho de Administração. Osmar Trindade, outro grande parceiro de muitas longas jornadas, foi eleito vice, e Maria da Graça Seligman, um dos esteios e razão do sucesso do arquivo que tínhamos, secretária. O Conselho teve, além do Luiz Cláudio, Jorge Olavo de Carvalho Leite, José Guaraci Fraga, Carlos Karnas e Antonio Oliveira. Na suplência estavam Carlos Henrique Bastos, Edgar Vasques, Assis Hoffman, Marcelo Lopes e Emanuel Gomes de Matos. No Conselho Fiscal formaram João Souza, Alberto André, Agnese Schifino, Sérgio Becker e Tomás Pereira. Na suplência, Antônio Firmo Gonzalez, Carlos Mossmann, Luiz Carlos Felizardo, Jandira Maria César e Léo Tavejanski. Quantos jornalistas respeitáveis aí, hein?

A capa do último boletim com a ilustração genial do Edgar Vasques: 280 sem patrão

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há quase 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem três netos.

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