Aconteceu comigo um caso que reforça minha tese que enquanto você não resolve um grande problema, ele fica no subconsciente até a solução. Chamo isso de problema imanente, pois ele não se desgruda até encontrar a solução.
Tenho dezenas de casos em que as soluções chegaram prontinhas e cujo exemplo máximo contei no livro sobre o Teatro de Equipe.
De toda a história que cerca, não só a construção, mas toda a trajetória do Equipe, nenhuma se aproxima, pela criatividade, pelo inusitado e pelo esforço coletivo, desta que começa numa loja de roupas íntimas femininas.
Eu subia a Rua da Praia, em Porto Alegre, quando minha atenção foi desviada para uma vitrine onde, entre outros artigos, era exibido um sutiã com um modelador circular de vulca-espuma.
Minha cabeça, imediata e prosaicamente, desceu dos seios para as bundas. Acendeu-se na minha mente uma lâmpada de muitas possibilidades…
O “imanente”, no caso, era como conseguir as 116 poltronas necessárias para o teatro que ficaria pronto em poucos meses, mas todos os recursos financeiros já estavam comprometidos.
Entrei na loja e perguntei a uma vendedora quem fabricava aqueles sutiãs. A sorte estava literalmente do nosso lado – a confecção era numa rua transversal a poucos passos da loja. Para lá fui, toquei a campainha, a porta abriu-se com uma cordinha e uma senhora, lá em cima da escada, perguntou:
– Quem é?
– A senhora não me conhece, sou Mario de Almeida.
-Do Teatro de Equipe?
– Sim!!!
– Então, suba.
– Subi.
– Que deseja?
– O que a senhora faz com a sobra de vulca-espuma dos sutiãs?
– Jogo fora.
– Pode jogar pra mim?
– Poder, posso. Mas para quê?
– Talvez resulte em poltronas.
Essa maravilhosa empresária judia assistia a todos os nossos espetáculos, falou de “Esperando Godot” e do “Rondó 58” e nos prometeu, é claro, ceder a vulca-espuma.
Entre voando e flutuando, cheguei para o companheiro Milton Mattos, ainda estudante de arquitetura e disse mais ou menos isso:
– Milton, aquelas cadeiras da moda (anos 50), de ferros trançados, podem ter os assentos e encostos forrados de vulca-espuma e revestidos de tecido. Fixadas nas vigas de madeira, dispensam os pés.
Milton nem piscou, captou de cara o tamanho da proposta e, caneta na mão, começou a rabiscar. Desenho pronto, solução hiper moderna naquele 1960 e a sorte continuava ao nosso lado: vizinha ao edifício onde moravam Paulo José e o irmão Orlando Carlos, funcionava uma funilaria. Negócio fechado dentro dos princípios da “boa vizinhança” e, enquanto eram feitas as cadeiras, foi dado início ao maior mutirão, com as seguintes etapas:
1. Cortar 232 moldes de papelão que serviriam, como pães de sanduíche, para receber o recheio dos assentos, no caso, a vulca-espuma;
2. Forrar em algodão puro os papelões recheados;
3. Forrar no tecido escolhido – creme-claro – os assentos e costurá-los nas poltronas;
4. Idem, idem, com os 232 moldes dos encostos.
Durante semanas, quem chegasse nas mais diversas horas, no Equipe quase concluído, iria encontrar as moças do elenco e algumas nossas amigas cumprindo essas tarefas.
Uma noite, a serviço do Equipe, entrando no tradicional restaurante da classe teatral de São Paulo – Gigetto -, sou surpreendido por Cacilda Becker que, vindo em minha direção, tascou-me dois beijos nas faces:
– Mario, estava te devendo esses beijos.
– Por quê?
– Vi, lá em Porto Alegre, as moças do Equipe costurando as poltronas! Teatro é isso!
Fosse eu um oportunista e perguntaria se ela não teria visto também o Orlando Carlos enrolando metros e metros de fios de níquel-cromo para fazer o nosso equipamento de luzes em resistência.
Eu ganharia, no mínimo mais dois beijos.


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