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Da série Histórias Curtas

Por Flávio Dutra

Três histórias inspiradas em fatos reais

1. Os piscineiros

Aos 16 anos, Guita teve um sonho perturbador. Sonhou que conseguira construir na casa da praia uma piscina de águas azuis e quem fizera a obra foram dois rapagões, que trabalhavam só de bermuda, sem camisa, tostados pelo sol litorâneo. A imaginação da moçoila viajou nas relações com os dois operários.

Vinte anos depois, com Guita ainda em boa forma apesar da passagem do calendário, o sonho poderia se concretizar. A piscina encomendada estava pronta e fora construída por dois rapazes, como imaginara no sonho. Só que…

– Olha, eram uns guris de bom porte, mas quando abriam a boca faltavam dentes e do que diziam nada se aproveitava, além dos detalhes da construção. Assim ficou difícil ser feliz. 

E Guita voltou a sonhar, porque era bem mais prazeroso do que a realidade obreira.

 

2. Diálogo impertinente

Na rede social: 

– Oi.

– Olá.

– Tudo bem?

– Tudo.

– Me chama no meu Zap  (…)

– Pra quê?

– Lá vou te apresentar meu trabalho. Vamos ver se vc se interessa.

– Que tipo de trabalho?

– Eu vendo vídeos e fotos minhas. Sensuais…

– Não tenho interesse.

– Na vdd eu queria sair disso. Queria um companheiro.

– Minha faixa etária não combina com a tua.

– E daí? Eu não quero um novinho, que só quer sexo. Quero um homem maduro, responsável.

– Conheço um local onde tem um monte. Ali onde jogam dama na Praça da Alfândega.

– Vc é muito mau educado, ridículo, grosso.         

 

3. O Vaidoso

O consagrado escritor, tão talentoso quanto vaidoso, encontra em meio a praça o amigo incauto e depois da saudação inicial, passa a orgulhar-se dos seus feitos literários.

– Meu último livro vai ser traduzido em mais três países. Agora já são cinco versões no exterior. Não é pouca coisa para um escritor da província. O romance foi muito bem recebido pela crítica e até já tenho propostas para que vire filme ou minissérie. Olha, acho que mais uma vez acertei a mão. A história é realmente interessante, mais do que isso, instigante. Os livros anteriores também tiverem ótima aceitação de público e de crítica, inclusive o de poesias, com meus sonetos preferidos. Penso que chegou a  hora de pleitear uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Não me tomes por vaidoso, mas acho que já mereço ser um imortal!

A conversa seguiu unilateral por mais um tempo, até que o nosso personagem se deu conta de que estava diante do que deveria ser um interlocutor. Aí fez uma pausa  e disparou:

-Bah, já falei demais. Gostaria de te ouvir também. Então, me diz: o que achas da minha obra. Seja sincero.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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