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Dança e contradança

Imagine a escolha de Miss Brasil por um júri, por exemplo, com Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura, Bruno Giorgi …

Imagine a escolha de Miss Brasil por um júri, por exemplo, com Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura, Bruno Giorgi e Josué Montello. Impossível.

Aos menos idosos fica difícil acreditar que Marta Rocha, a Miss Brasil mais badalada do século passado, vice Miss Universo, há exatos 50 anos, foi eleita pelo poeta e acadêmico Manuel Bandeira, o grande pintor e cenógrafo Santa Rosa, o poeta e cronista Paulo Mendes Campos, o escritor Fernando Sabino, o jornalista Pompeu de Souza e a escritora paulista Helena Silveira. Helena, além de romancista e crítica de TV, escreveu para o teatro O Fundo do Poço, sobre o mais bárbaro crime ocorrido em São Paulo nos anos 40: um professor de Química matou mãe e irmã e jogou-as no poço da casa deles. Foi das últimas interpretações de Itália Fausto, aquela que foi uma das maiores atrizes do Brasil. Na eleição de Marta, o terceiro lugar coube à gaúcha Lígia Beatriz Carotenutto que, ano seguinte, estrelava Uma Mulher e Três Palhaços, de Marcel Achard, numa montagem do Teatro Universitário de Porto Alegre.

De acordo com nota distribuída pela organização, a Miss Brasil 2004, a gaúcha de Gramado Fabiane Niclotti, foi eleita por um “júri de 21 pessoas composto por personalidades e especialistas em beleza e moda como Carlos Carrasco, Erika Palomino, Wanessa Camargo, Gui Paganini, Isabela Fiorentino, Lílian Pace, Fause Haten e John Stapleton (maquiador de Hollywood), Lúcia Flecha de Lima, Paulo Borges, Gabriela Bündchen e Felipe Velloso, entre outros”.

Mais uma vez – e já há algum tempo – o noticiário sobre o concurso deixa de destacar o primeiro título de Miss Universo conquistado por uma brasileira, a pelotense Yolanda Pereira, em 1930.

Os tempos mudaram e os concursos de beleza foram banalizados, inclusive sendo criticados como coisa brega, pra lá do fim de linha.

Tenho um palpite que Kennet Cooper deu o pontapé inicial nesse rebaixamento, nesse “down grade” do concurso.

Anos 60, o Brasil começou a se mexer dentro dos ensinamentos de Cooper, um adeus ao sedentarismo e uma busca disciplinada de saúde. Esse pontapé alertou o pessoal antenado em marketing e começou a difusão das academias de ginástica e de musculação, um espaço até então modestamente ocupado pelas academias de halterofilismo.

Ao mesmo tempo, Playboy e revistas de glorificação do nu feminino ganhavam multidões de leitores. A indústria da moda tornou-se agressiva e, com ela, começaram a surgir as top models. Como saúde e beleza não são parentes distantes, as clínicas de estética há muito travam acirrada concorrência. Cirurgia plástica, intervenções estéticas e silicone completam um quadro no qual eugenia pode ser, apenas, a alavanca inicial para um quadro da beleza feminina conquistada.

O cinema, a televisão – na programação e nos comerciais – fazem uma exposição diária e maciça de beleza turbinada, siliconada e sarada, vestida, nua, ou mais ou menos. E existe, ainda, um contigente de belas profissionais no teatro, na moda, nas recepções de eventos, etc. E as revistas dedicadas aos famosos 15 minutos de fama fazem um rodízio permanente dessa beleza, de seus namoros e de suas vidas íntimas (sic). Prevalece o pragmatismo: sexo vende.

Esse cenário banalizou em definitivo um concurso cujas concorrentes, em maioria, eram ingênuas leitoras do Pequeno Príncipe e tinha um Manuel Bandeira no júri.

Em 1963, quando Ieda Maria Vargas consagrou-se como a segunda brasileira a receber coroa e troféu de Miss Universo, eu chefiava a reportagem da Última Hora gaúcha e comandei a cobertura da chegada dela a Porto Alegre. Eu, e todos os colegas dos outros jornais, tomamos um “banho” da Folha da Tarde, cuja capa era Ieda passando ao lado do “Laçador”, de Antonio Caringi, cujo modelo vivo foi o já legendário Paixão Côrtes, um ícone do regionalismo. Acontece que, nos States, Ieda desfilou no item “traje típico”, de chiripá e botas, mesmo traje do laçador de Caringi.

Anos depois, estive em Porto Alegre representando meu patrão, Roberto Marinho, e recebi um prêmio da RBS para a Fundação Roberto Marinho. Na festa que se seguiu, dancei com Ieda e contei-lhe que naquela sua triunfante chegada eu “dancei” por causa dela.

Inté.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

Autor

Mario de Almeida

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