Minha mãe é bióloga, profundamente apegada à ciência e conceitualmente definida como uma naturalista, ou seja, as coisas da natureza ou biológicas preponderam às condições sociais. Ela é também a melhor mulher do mundo. Neste final de semana, ao me entregar uma generosa travessa com uma deliciosa torta de bolachas que ajudaram a aplacar a fome de corpo e alma durante o isolamento, conversávamos sobre como passaremos por este período. Fazendo valer sua base teórica, a sábia Dona Mara proferiu: “Tudo vai ser diferente, é um novo mundo. E aí, Darwin entra em campo: não serão os mais fortes, mas sim, os mais adaptados que sobreviverão”. Eu, que sou um ávido estudante da área de humanas e um fervoroso leitor de sociologia, isto é, considero que os fatos sociais determinam mais os rumos da humanidade que os naturalismos e a biologia, concordei com isso. Entretanto, logo trouxe a frase para um contexto, digamos, mais sociológico: a vida é feita de respirar fundo e se adaptar.
É impossível um ser social devidamente enquadrado em normas sociais passar uma vida inteira sem se adaptar ao que os contextos de cada espírito de época impõem. O exemplo mais claro diz respeito, sem sombra de dúvidas, às transformações tecnológicas. Eu não nasci com a Internet. Eu sou de uma geração essencialmente televisiva. O domínio instrumental da tecnologia foi a partir de seus aparatos eletrônicos, ainda não digitais. Eu sabia usar um gravador de dois decks, manipular uma vitrola escolhendo a faixa preferida de um LP, operar um videocassete, um forno de micro-ondas ou jogar um fliperama como ninguém.
Quando aparece a Internet, eu não sabia como fazer. Fui aprendendo com base nas operações mais triviais de tentativa e erro. Eu só parei para pensar nisso horas antes de escrever este texto: qualquer base de construção de um caminho novo ou de desconstrução de modelos que passaram e ainda estão enraizados em nós passa por tentativa e erro. Muito erro. É assim que funcionam as adaptações. É assim que a gente se torna um ser social contemporâneo àquilo que o espírito de cada tempo pede.
É claro que a questão instrumental da tecnologia serve como uma ilustração mais simples de se fazer se compararmos com as questões dos costumes. Aí, tiramos da tecnologia – operacional – e passamos ao comportamento ou “estado do tempo” – comportamental. Recentemente, lendo alguns filósofos importantes para a construção do pensamento humano, percebi que boa parte de seus textos que abordavam questões como cidadania, multidão, povo e opinião pública, separavam em categorias o ser humano, gerando uma contradição, um preconceito e, se formos pegar os dias atuais, e adentrando um campo corajoso de classificar gênios da filosofia desta forma, até uma certa repulsa por quem lê estes textos hoje em dia. Aléxis de Tocqueville (1805-1859) escreve “A Democracia na América” (1835) encantado com a liberdade do “Novo Mundo”, em sua visita aos Estados Unidos. Uma liberdade que tinha, na prática, a escravidão legalizada. David Hume (1711-1776), em “Investigação sobre o entendimento humano” (1748), separa as pessoas entre cidadãos, as mulheres e os negros. Uma corrente muito próxima ao que pensava John Locke (1632-1704). Da mesma forma que boa parte dos teóricos que se desenvolveram na primeira metade do século XX tratava as mulheres, como algo à parte de uma constituição social participativa: a elas, a lida com o instrumental (a casa, os filhos e o marido); a eles, o pensar.
Esse sentido delineou boa parte das relações até hoje. Foi preciso que muita coisa mudasse para que hoje tenhamos uma sociedade que, ainda desigual, ao menos discute essas questões. Se a adaptação digital é mais fácil e, vá lá, a gente erra podendo errar, a adaptação social é bem mais punitiva e inaceitável, porque tem uma sutil consequência implícita nisso tudo: a gente é marcado pelo erro, a gente é sufocado pelo lapso e a gente, inevitavelmente, é massacrado por cometê-lo.
O espírito do tempo é rápido, voraz e implacável. Pela primeira vez na minha vida, sinto o distanciamento a uma geração que vem depois de mim. Esta geração nasce sob um novo status quo, diferente daquele que foi enraizado em mim e pelo qual tive que passar pela minha adaptação. As estruturas montadas na criação da minha geração naturalizaram coisas absurdas e que, nesta geração, já chegam desmontadas, quando não desconstruídas. Elas sabem o que é o certo e o errado de acordo com o espírito do tempo atual, enquanto a minha geração tinha uma noção diferente do que era o certo e o errado. Minha geração teve que adaptar suas noções do que é certo ou errado de acordo com uma atualização necessária ao espírito de seu tempo. Da mesma forma que fizemos isto com os mais velhos. Nunca foi concebível, para minha geração, a mulher não votar. Mas para meus antecessores, era. Como não é concebível, para as gerações atuais, determinados gestos que, para nós, eram.
Os costumes, os relacionamentos, as interações sociais mudam e somente quem se adapta está pronto para assumir uma nova ordem em si, uma nova virtude, um novo caminho. Se as coisas são assim, não sou eu ou qualquer um quarentão que vai dizer que não é, porque isso já está no passado. O que acompanha o espírito do tempo é a capacidade de se desconstruir, de se reorganizar e de assumir que toda tentativa que terminou num erro pode ter sido, também, por uma violenta incapacidade de enxergar esse tal de espírito do tempo.
O homem social é um ser em adaptação profunda: de linguagem, de comportamentos, de manuseios, de práticas e de pensamentos. A diferença é que o espírito do tempo presente não perdoa erros. A desconstrução vem à força, instigada pelos jovens – que a gente insiste em rotular como ingênuos, intempestivos ou menos sábios -, provocada pela espetacularização do pensar e violentamente marcada pelo erro imperdoável. No espírito de tempo atual, o erro é imperdoável – pelos outros – e imperceptível – por nós. Até que a gente se adapte, muita coisa já nos cortou, deixando cicatrizes profundas, relações irrecuperáveis e culpas irremediáveis. Mas, se a gente está aqui, é porque o darwinismo deu o seu jeito. Bem ou mal, os instintos de sobrevivência e de perseguição para sermos a melhor versão de nós mesmos preponderam sobre a relutância em entender de cara esse espírito. Com base na tentativa e erro, sigamos, sob a bênção de Charles Darwin, desconstruindo-nos, adaptando-nos, sobrevivendo. E que eu, me (des)organizando, possa me des(organizar).
