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De boêmios, propaganda e tempos idos

Passei, sábado, pelo Lamas, o mais antigo café, bar e restaurante do Rio, aberto em 1874 e em pleno funcionamento, ainda que a estação …

Passei, sábado, pelo Lamas, o mais antigo café, bar e restaurante do Rio, aberto em 1874 e em pleno funcionamento, ainda que a estação do Metrô, no Largo do Machado, tivesse demolido o edifício original e empurrado o Lamas para uns 500 metros de distância. Anterior ao Lamas, mas confeitaria e sorveteria, só a Cavé, com nome francês, mas fundada por portugueses em 1855 e ainda no mesmo endereço, Rua Uruguaiana esquina com Sete de Setembro. Vale a pena passar por lá para ver os vestígios de bom gosto.

No final do século 19, o ponto mais mundano do Rio ficava na Rua do Ouvidor e se chamava Confeitaria Pascoal. Desde o pão matinal, almoço, lanche, chá das 5, aperitivos, jantar e bebidas, a Pascoal reunia o que havia de celebridades em todas as áreas. Aconteceu que, num determinado dia, Olavo Bilac, já poeta famoso, brigou e rompeu com o gerente da Pascoal e, a partir daí, “mudou-se” para a ainda nova Confeitaria Colombo, fundada em 1896, na Rua Gonçalves Dias, endereço bastante próximo à Pascoal. Não demorou muito e a migração se completava com os mais famosos nomes da época também se “instalando” na Colombo. Claro que artistas, escritores, poetas e jornalistas também eram assíduos freqüentadores, além dos boêmios de todas as castas. Esses, quando a Colombo fechava, se mandavam para o Lamas, que jamais fechava. Na Colombo, havia muitos freqüentadores “residentes”, aqueles que durante os sete dias da semana “assinavam o ponto” na confeitaria que, inclusive, passou a ser o endereço postal para os que no Exterior, principalmente em Paris, mandavam correspondência para seus amigos também “residentes”. Entre os notórios freqüentadores estavam os irmãos maranhenses Álvaro e Artur Azevedo, José do Patrocínio, Coelho Neto, o poeta e médico santista Martins Fontes, Guimarães Passos, Ferreira Viana, Lima Barreto, Luiz Murat, Paula Ney, Bastos Tigre – que acabou abrindo sua agência de propaganda – e o paranaense Emilio de Menezes, que declarava ser a Colombo o seu escritório. Já Bilac dizia ser freqüentador da Colombo, mas que trabalhava no Lamas.

Naqueles tempos, a propaganda se valia muito do talento dos poetas – fato iniciado décadas antes com Casimiro de Abreu – e quase a totalidade dos anúncios (reclames) era feita em versos, nos jornais, nos cartazetes espalhados pela cidade ou também nos calendários, muito usados como peças de propaganda. Pouco tempo depois da migração, a Colombo passou a ser um balcão informal de propaganda, onde responsáveis por indústrias e casas comerciais procuravam seus “redatores” e faziam seus pedidos.

Bastos Tigre, um pernambucano de múltiplos talentos, entre eles o de publicitário, foi pioneiro na criação de músicas com fins comerciais. Em 1934, chamou Ary Barroso, este musicou uma letra sua, com 25 versos, cujo resultado, uma marchinha, foi gravado por Orlando Silva. A música, sucesso carnavalesco, marcava o lançamento do chopp da Brahma em garrafa, ou seja, nascia a cerveja Brahma:

Quando o tempo está abafado,

o que o tempo desabafa

é o Brahma Chopp gelado

é o Brahma Chopp gelado

de barril ou de garrafa

Manoel Bastos Tigre (Recife,1882/Rio,1957), além de engenheiro e bibliotecário, destacou-se como jornalista, poeta, compositor, teatrólogo e humorista. Como publicitário, criou o slogan da Bayer que – me consta – é o único slogan criado no Brasil que, vertido para muitos idiomas, foi usado no mundo inteiro: Se é Bayer é bom. Como exemplo da diversidade de seus ofícios, vale citar que, em 1915, prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional, com tese sobre a Classificação Decimal. Exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos e é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil. Foi dado como autor da mais famosa propaganda brasileira, assim como o poeta santista, Martins Fontes, que fazia seus “frilas” na propaganda. Bastos Tigre, já na velhice, disse ao seu neto, Arnaldo Ferraz, que jamais escreveria “no entanto” ou “no entretanto”. O médico e poeta Martins Fontes também não foi, pois hoje, sabe-se, com certeza, que o autor da peça publicitária presente em todos os bondes, foi o farmacêutico Ernesto de Souza:

Veja ilustre passageiro

O belo tipo faceiro

que o senhor tem a seu lado

no entretanto acredite,

quase morreu de bronquite

Salvou-o o Rhum Creosetado.

Bondes não há mais, mas ao passar pelo Lamas lembrei-me que lá levei, há muito, para almoçar, a professora de teatro e escritora gaúcha, minha amiga Olga Reverbel. E quanto aos bondes, foi num deles, em Porto Alegre – Floresta – que conheci a Lúcia Cúria, antes de ser modelo internacional e braço direito da Demoiselle Chanel e muito, muito antes de ser a viúva Walter Moreira Sales.

Inté.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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Autor

Mario de Almeida

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