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De cordéis, muros e propaganda

Em minhas últimas andanças pelo Ceará, ganhei de um sobrinho da área de Comunicação Social um livro precioso: “Publicidade em Cordel – O mote …

Em minhas últimas andanças pelo Ceará, ganhei de um sobrinho da área de Comunicação Social um livro precioso: “Publicidade em Cordel – O mote do consumo”, de Gilmar de Carvalho (Annablume Editora.Comunicação). Como há muito tenho curiosidade por um tipo de publicidade mural, que só conheço em Fortaleza e outras cidades cearenses, esse livro me tirou da inércia e resolvi investigar o assunto, pois a utilização do cordel como ferramenta de propaganda é, também, um tema nordestino.

Conta-nos o escritor e professor Gilmar como o tradicional cordel, das mais fortes identidades da cultura nordestina, tem sido objeto de edições específicas na divulgação de serviços e, inclusive, na “glorificação” de conceituadas marcas nacionais.

O cordel foi responsável pela implantação de muitas tipografias pelo interior nordestino e revelou grandes artistas da xilogravura e, entre muitos, J. Borges, de Bezerros, onde vive até hoje, aos 69 anos de idade, esse único pernambucano que recebeu o prêmio de Honra ao Mérito Cultural (1999), do Ministério da Cultura. Ele destaca a xilo “A chegada da prostituta no céu”, de 1976, como sua obra predileta e que gerou, mais tarde, o cordel do mesmo nome:

“… Aqui termino o livrinho

em favor das prostituta

para vender aos homens

a rapaz, a corno e puta

pessoas de baixo porte

e aos de boa conduta.”

Voltando ao livro de Gilmar, ele exemplifica duas formas com as quais a propaganda se apropria desse veículo: o contato direto entre o cliente e o fornecedor e a intermediação da agência, através de um briefing passado ao criador. Há coisas curiosas, como o folheto das máquinas de costura Singer que “Quando vai pregar um zíper / nem encolhe nem estira / faz casas com tanta pressa / que até parece mentira…” Já a cachaça “Kariri com K” informa que “O seu depósito possui / vasilhames a valer / onde dorme a Kariri com K / até chegar a envelhecer…”

Nomes nacionais na indústria e no comércio, através de suas agências, contrataram cordelistas e divulgaram seus pontos de venda: Brahma, Lojas Arapuá e Pão de Açúcar são alguns deles.

Assim como na primeira vez que fui a Porto Alegre, em 1957, assustei-me com a quantidade de bares, padarias e afins pintados com as cores da Pepsi, em Fortaleza e outras cidades cearenses admirei-me com a propaganda mural comercializada através de empresas, um outdoor até então por mim desconhecido e diretamente vinculado às atividades da publicidade. Isso, antes da mania do grafite emporcalhar as cidades. Este ano, em duas viagens a Fortaleza, adicionei outra surpresa: existe um acordo, contrato, ou coisa parecida entre as empresas desse tipo de outdoor e os grafiteiros que emporcalham a cidade, mas nunca a pintura comercial. Isso gerou uma pesquisa encomendada ao meu sobrinho Fernando Jorge da Cunha:

1. Quando e como surgiu a comercialização dos muros pintados com propaganda?

2. Quantas empresas há em Fortalezas especializadas no ramo?

3. Como são comercializados esses muros, prazos, preços etc?

4. Qual o acordo entre as empresas e os grafiteiros?

Assim que a pesquisa for concluída, voltarei ao assunto.

Enquanto isso, deixo para ti uns versinhos que devem haver influenciado o Zeca Pagodinho a rever sua condição de garoto (sic) propaganda:

“Não só se destaca a Brahma

no setor industrial

sua política se preocupa

com o problema social”

Inté.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris).

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Autor

Mario de Almeida

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