“Chovia uma triste chuva de resignação.
Me levantei e bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
Humildemente pensando na vida que não tive e nas mulheres que
não amei.”
Com alguns poucos versos, Manuel Bandeira definiu a angústia que as pessoas sentem quando sonham com a vida que não viveram. Em nosso cotidiano, fazemos escolhas a todo o tempo – que de uma forma direta ou indireta afetam nosso presente e o nosso futuro. Mas nunca paramos para pensar nas consequências das escolhas que acabamos de fazer:
“Por este caminho ou aquele?”
“Cara ou Coroa?”
“Fico mais um pouco ou vou para casa estudar?”
“A loura ou a morena?”
No momento em que escolhemos um caminho, deixando de seguir o outro, fazemos uma opção, cujos desdobramentos nunca conheceremos. Para cada encontro que tivemos, houve um desencontro que talvez nos conduzisse a outra realidade – um romance, uma profissão ou uma vida diferente da que temos hoje. Alguma coisa deixou de acontecer em nossas vidas. Mas não nos é dado conhecer onde o “Plano B” poderia ter nos levado.
Poetas e escritores dedicaram muitas páginas sobre perdas e desencontros inconscientes. Marcel Proust soube descrever com maestria o sentimento do encontro que não aconteceu. O cinema também se ocupou do mesmo tema, produzindo algumas sequências memoráveis, que nos convidam a refletir sobre esses pequenos dramas de nossas vidas.
Em 1945, o inglês David Lean dirigiu “Brief Encounter”, um sombrio drama sobre desencontros, em meio às incertezas do após-guerra. Trevor Howard e Celia Johnson se cruzam brevemente em uma estação de trem, mas as dúvidas e as descoincidências acabam transformando suas vidas de forma irremediável.
O tema volta ao cinema em 1957, com “An Affair to Remember”, o filme que fez uma geração inteira molhar os lenços nas salas de cinema, com o desencontro de Cary Grant e Deborah Kerr sugere uma reflexão sobre os descaminhos que o destino nos impõe.
A diretora Nora Ephron refilmou a estória em 1993, na forma de comédia pós-moderna, mostrada do ponto de vista da mulher contemporânea. Em “Sleepless in Seattle”, o casal apaixonado – que fez a diretora chorar em sua juventude – finalmente se encontra no alto do Empire State. Mas os personagens vividos por Meg Ryan e Tom Hanks não conseguem esconder sua angustiante solidão, vivida de maneira paralela dos dois lados do continente. Mesmo com o riso descontraído e a música enternecedora, percebemos que aquele encontro é impossível e plausível apenas em sonhos.
Em “Morte em Veneza”, Thomas Mann ambientou os últimos dias de seu personagem, Gustav von Aschenbach, no deslumbrante Hotel des Bains, na praia do Lido, na laguna de Veneza. Os vestígios da decadente nobreza européia dos anos 1900 emolduram a tragédia do intelectual de meia idade, perturbado com a beleza de Tadzio, um adolescente polonês, em férias com a família.
É um encontro que não acontece – von Aschenbach morre sem ter trocado uma única palavra com o jovem. Em 1971, Luchino Visconti filmou o romance no mesmo Hotel des Bains, com Dirk Bogarde como Aschenbach e Silvana Mangano como a mãe de Tadzio. E, com um toque de gênio, movimenta os tristes e patéticos personagens em meio à opulência do hotel-palácio, para compor uma sombria versão do permanente drama do desencontro.
Assim, talvez seja melhor ficarmos com a conformada desilusão do poeta:
“Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles não chegarem, nós saberemos que foi por nossa culpa. O inverno — te lembrarás — chegará e nos vai maltratar; não haverá flores, não haverá mar, e seremos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil”.

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