Eu não sabia, mas naquele tempo
eu tinha raiva deles,
porque também era um tapado.
Se tivesse os olhos descobertos,
não teria raiva de ninguém.
No apagar das luzes do século XX, Stanley Kubrick, o genial realizador de “2001, uma odisséia no espaço” e “Laranja Mecânica”, entre outros filmes não menos importantes, fez o magistral drama “De olhos bem vendados”, com nada menos do que Tom Cruise e Nicole Kidman. Kubrick contemplou com câmera sensível (e ao mesmo tempo brutal) um secular tabu: casais da alta sociedade participam de confraria intitulada “Dilettanti Society”, onde se entregam a rituais orgiásticos, com propósitos secretos, mas o que rola mesmo é sexo pesado, em que tudo é devassidão, libertinagem e abandono.
Inversamente proporcional ao filme de “Olhos bem vendados”, o poeta, músico e compositor icônico Chico Buarque de Holanda descreveu na canção “Valsinha” a estória de um homem ressequido de amargura, anestesiado de indiferença que, súbito, descobre seus olhos para, logo, encantado, descobrir sua própria mulher e por ela se apaixonar: “Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar…”.
Descobrir nossos próprios olhos é levantar a venda, metafórica mas real, que nos impedia de enxergar a vida que sempre esteve ali, ao nosso lado e no entorno. Mas a retirada desta venda, emocional e psicológica, é um momento dramático. Ao retirá-la, arrancamos pedaços de nós. Somos forçados a reconhecer que, até ali, andava-se às cegas e, com frequência, metendo os pés pelas mãos. Pessoas ficam cegas de ódio, ou cegas de amor, de ressentimentos, de fome, de alienação, ou tornam-se cegas quando são obsessivas, nada de novo. Mas a pior escuridão é fugir para a cegueira, é ser cego por opção, como fazem os conservadores de pedra, e os maníacos que jamais se responsabilizam por seus atos e transferem culpas a torto e a direito.
Em ambos os casos, é como se estivessem mortos, embora vivos, no entanto. Nesses casos, a cegueira os levou para fora da atmosfera dos vivos. Se perderam para muito além das coisas, dos valores e dos sentimentos que nos fazem semelhantes. Sem essa semelhança, meus amigos, minhas amigas, meu filho, meus bravos e leais leitores, sem essa semelhança não se é parte da humanidade.Vira-se um ninguém,ou,o que pode ser pior,vira-se um psicopata frio.
Às vezes, duas pessoas de olhos descobertos se enxergam e se reconhecem, assim que a luz dos seus olhares se cruzam. Não que seja obrigado, por assim dizer, que sejam encontros de natureza amorosa, ou de repentina paixão. Muitas vezes são encontros das consciências expandidas, das naturezas generosas, de gentilezas inesperadas, bem ao modo das pessoas portadoras destas substâncias rarefeitas.
Quando elas se encontram, e quando apresentam seus amigos, também de olhos descobertos, formam-se verdadeiros oásis de humanidade, em meio às vastidões desérticas, originadas pela selvageria do egoísmo pós-psicanálise, o egoísmo flor de estufa, e também originadas pela volúpia financeira, pelo consumismo destrambelhado.
Naqueles oásis todos cantam, dançam, brincam e conversam com a mais absoluta liberdade de ser o que são, como diziam os velhos petistas da gema, sem medo de ser feliz. As pessoas, olhos descobertos, são doces, sem serem xaroposas, são amigas, porque é tácito, se admiram, se querem bem; estão de guarda baixa umas com as outras. São mais felizes, acredito, porque, quase sempre, são mensageiras de uma enorme alegria de viver.
Mas de que eu estou falando? De alguma utopia?
Não sei, para a minha avó Maria José, receber a Bandeira do Divino em casa era um evento extraordinário, da maior relevância e alegria. Eu também ficava alegre, mesmo sem saber muito bem por quê, e toda a vizinhança cantava e aplaudia. Minha avó Maria José era uma mulher de olhos bem descobertos, pela tremenda sinceridade que se devotava para tudo que a cercava. Lembrei de ela ter me dito que a vida nunca iria me trair. Esta crença se enraizou em mim por causa da sinceridade com que ela me disse isso. E quando a minha sobrinha Luara nos deu um baita susto, eu disse o mesmo para a minha irmã: que a vida não iria lhe trair .Eu tinha certeza que nada de muito ruim iria acontecer à Luara. Eu já tinha os olhos descobertos para ver isso, e, ter os olhos descobertos, às vezes, te faz ver coisas que os tapados jamais enxergam, perdão se pareço arrogante. É que os “tapados”, em geral, riem fácil de coisas que não têm graça, e subestimam a transcendência da vida. Quase sempre se dão muito mal e, claro, botam a culpa no mundo.
Passei muito tempo tendo raiva dos tapados. Eu não sabia, mas naquele tempo eu tinha raiva deles, porque também era um tapado. Se tivesse os olhos descobertos, como os tenho hoje, não teria raiva de ninguém.

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