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De tudo fica muito

Apparício Torelli, Barão de Itararé, o Brando, (1895/1971), “campeão olímpico da paz”, “marechal-almirante e brigadeiro do ar-condicionado”, “cantor l&i

Apparício Torelli, Barão de Itararé, o Brando, (1895/1971), “campeão olímpico da paz”, “marechal-almirante e brigadeiro do ar-condicionado”, “cantor lírico”, “andarilho da liberdade”, “cientista emérito”, “político inquieto”, “artista matemático, diplomata, poeta, pintor, romancista e bookmaker”, como se definia, era gaúcho e é um dos maiores humoristas de todos os tempos.  Dele disse Jorge Amado: “Mais que um pseudônimo, o Barão de Itararé foi um personagem vivo e atuante, uma espécie de Dom Quixote nacional, malandro, generoso, e gozador, a lutar contra as mazelas e os malfeitos”. O texto acima foi extraído do livro Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, (Editora Record, Rio de Janeiro, 1985) 

Padre António Vieira, jesuíta português nascido em 1608, missionário no Brasil da Companhia de Jesus, grande orador, ficou celebrizado pelos seus sermões com os quais enriqueceu a literatura barroca luso-brasileira. Pensador ilustre, deixou-nos, no século XVII o seguinte ensinamento: “Somos o que fazemos. Nos dias em que fazemos, realmente existimos; nos outros, apenas duramos”.

Em sua obra, o filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre resume que o homem é a sua ação. Isto no século XX.

Essa é uma prova de que se uma imagem vale 1000 palavras, algumas palavras podem realizar uma plataforma de vida.

Na história do Brasil, muitos se destacaram como frasistas, mas um nome se destaca como o do grande Barão de Itararé, gaúcho nascido Apparício Torelli e que, trabalhando no jornal carioca A Manhã, criou o seu pasquim humorístico, A Manha, pois, de acordo com ele mesmo, “quem não chora não mama”.

Uma única frase popularizou o Barão no Brasil todo, pois às vésperas do golpe de Getúlio, decretando o Estado Novo, em 1937, profetizou: “Há algo no ar além dos aviões de carreira”.

Apesar de muitos jornalistas legarem milhões de frases para o humor da posteridade, como Sérgio Porto, travestido de Stanislaw Ponte Preta – “feijoada para ser completa tem que ter ambulância na porta” –, nenhum se tornou, depois do Barão, um frasista tão prolífero como o jornalista de nome errado que só escrevia certo, Millôr Fernandes: “Errar é humano. Ser apanhado em flagrante é burrice” ou “A cada mês faltam mais dias no salário do trabalhador”.

Millôr era um múltiplo de si mesmo, pois suas muitas atividades eram exercidas em abundância. Millôr foi generoso, sentiu a necessidade de fazer de sua vida uma homenagem à inteligência, assim como Vieira e Sartre.

Quiseram os maus fados que quatro dias antes de Millôr partir para a eternidade, Chico Anysio resolveu antecipar-se e inserir-se no Memorial da Pátria.

Sempre achei que Chico Anysio não criou suas mais de duzentas personagens, era um verdadeiro ‘‘cavalo que recebia” os produtos de sua criatividade, como se fossem almas extraviadas do cenário popular deste país.  Com todo o respeito, eu achava o Chico Anysio o Chico Xavier da TV.

Apaixonado em tempo integral, com seis casamentos, Chico perdeu para Vinicius de Moraes que insistiu nove vezes. Ganhou na proliferação, enquanto o poetinha, mais moderado, teve cinco filhos: “Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos. Como sabê-lo?”, Chico teve nove e nunca fugiu à luta das pensões todas.

Mas Chico, um ator, inda que frasista, não poderia concorrer com o jornalista Millôr, um exuberante profissional das letras: “Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos”.

Inda que frasista econômico, Chico também tinha talento para o ofício:

“No Brasil de hoje, os cidadãos têm medo do futuro. Os políticos têm medo do passado.”

“O brasileiro só tem três problemas: café, almoço e jantar.”

“Penso na morte menos do que ela pensa em mim.”

“Não tenho medo de morrer. Tenho pena.”

Se eu fosse fazer uma alegórica chegada de Chico e Millôr ao além, deixaria a recepção para o Barão de Itararé:

“-  Até que enfim, hein?.”

Inté.

PS.  “A morte não é imposto de renda, não dá para sonegar” (M.A.) 

Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)

Mario, grato. De pleno acordo. José Carlos Pellegrino, engenheiro perito, São Paulo

Se eu fosse dizer tudo o que me agradou nesta última crônica, precisaria de um espaço maior do que o teu e então não teria a tua qualidade, e perderias o teu precioso tempo, tão bem delineado. Love, Vera (Verissimo), generoso  termômetro de qualidade da coluna, psicóloga, Porto Alegre

Meu querido Mario, estou informando a você que, com o seu consentimento, ou não, vou passar a sua coluna para todos da minha lista (2520) nomes dizendo que estou imitando você. Claro que vou dar o competente crédito e até falar mais algumas coisas sobre você e dizer que esta é uma coluna que estou usando como se minha fora. Brilhante. Sensacional. Delícia. É isto aí. Abraços do Isnard (Manso Vieira), publicitário, jornalista, Rio.

Jovem Mario: Fiquei em dúvida: “Enfim, a partir de hoje estou à disposição – como sempre – mas só em conexões diretas em [email protected]  Termino sem pudor de plagiar Drummond: ….” …não terei mais o teu escrito – meu balão de oxigênio? Moisés Andrade, arquiteto, Olinda, Recife

Resposta: Moisés, a coluna segue normal. Musculação e escrever são minhas formas de permanecer “jovem”. Essa é a minha tentativa de mens sana in corpore sano. Abração. Jovem Mario

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Autor

Mario de Almeida

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