Que o vento que varreu minha vida não me
leve também a saudade que tenho dela (M.A.)
Abro os jornais e leio: jornalista mata mãe e irmã e se suicida; aumenta a dívida pública; mulher admite à PF que dava propina a prefeito; mãe faz armadilha para pedófilo que seduzia filha… e lembrei-me de Bandeira: “Eu faço versos como quem chora de desalento… de desencanto…”.
A palavra desencanto rimou com realidade e antes que ela me levasse à nostalgia, refugiei-me na poesia, meu universo de conforto.
Certas palavras ressaltam a obra de um poeta como um ícone, uma subassinatura, tamanha é a sua presença.
“Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente…”.
Assim como na obra lírica de Camões a palavra de maior presença é “alma”, Quintana, já no título de seu primeiro livro, Rua dos Cataventos, elegia vento e ventos como palavras constantes…
E o que mais enfurece o vento são esses poetas inveterados que o fazem rimar com lamento…
O poeta, inclusive, se compara aos ventos…
(?) E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis (?): “A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância”.
Quintana extrai do vento grandes achados:
A maior dor do vento é não ser colorido.
Acho, poeta, que você pensou nisso ao ver um arco-íris…
Meu Deus! e se tu fizesses agora mais uma das tuas mágicas ao menos para colorir o vento!
E o poeta quer cantar o vento…
O vento gosta é de cantar… Quem me faz uma letra para a canção do vento?
Manuel Bandeira fez a Canção ao Vento:
O vento varria as mulheres…
E minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
Guilherme de Almeida lembra o vento num soneto
Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.
Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…
Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais…
– Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
Lembrando-se do famoso filme E o Vento Levou, o poeta lembra o que o vento NÃO levou.
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…
O poeta encontra no vento uma semelhança
O menino canta
Uma canção que não tem sentido
Como não tem sentido o vento
Nem a minha nem a tua vida…
Lara de Lemos e o nada:
Ouve em silêncio meu canto breve
e não perguntes se voltarei
Voltam as nuvens? Retorna o vento?
Em puro nada me tornarei.
E Drummond pergunta:
E o que mais, vida eterna, me planejas ?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.
Gilka Machado se desnudava na Volúpia do Vento:
… E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!
Paulo Bonfim
Outro serei amanhã
E entre dois esquecimentos
Levarei meu sorriso
E a rosa dos ventos.
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…
Poeta, sintetize o vento:
Vento: pastor de nuvens
E Porto Alegre, poeta?
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(É nem que fosse meu corpo!)
Sinto uma dor esquisita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar
Suave mistério amoroso
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…
Assim como Érico Verissimo, o gaúcho Quintana foi o outro grande nome aclamado
por leitores de todo o Brasil. E até com a morte ele não perdeu o jeito inesperado de exprimir sentimentos:
Quando disserem os médicos
Que nada há a fazer
Eu quero que tu me cantes
Uma canção de bem morrer…
Poucos poetas no mundo tiveram, além do aval dos críticos e de leitores mais cultos, a admiração popular como teve Quintana, esse poeta do simples, esse fabuloso homem de múltiplas letras. Pelas ruas por onde o seu féretro passava, rumo ao cemitério, na cidade de seu repouso, o povo aplaudia, batia palmas a esse saltimbanco que soube chorar, soube sofrer e, jogando palavras ao vento, chegou aos nossos ouvidos, enriquecendo nossas vidas. Embora triste, o povo agradecia e, certamente Quintana, que sempre surpreendia, surpreendeu-se. Surpreso, também, por estar passando por algumas ruas que nem suspeitava (nas ruas que não andei)
E a gente encerra aqui, lembrando seu amigo Drummond…
Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.
(e há uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei…)
Inté.
Vitrine (Correio virtual)
Muito bom, Mario, obrigada por compartilhar seus textos cheios de inspiração. Um abração. Christiane (Marcondes Alves de Brito), São Paulo
Oi, honey. Ahã, compreendi. Queres nos deslumbrar. Manoel (de Barros) é um dos nossos pináculos, mas acrescido de tua escolha dos versos, a riqueza é maior. Sempre que se dá um foco, melhora a visão. Não é assim que fazias no teatro? ou com aquele truque de ir aumentando a luz devagarinho? Aliás, lembrei muito de ti, agora que tivemos o Porto Alegre em Cena. Para mim, tuas encenações do Martins Pena ficaram na nossa história. Voltando aos versos das últimas colunas, são de guardar em álbum. Lembrei daqueles albuns que fazíamos no colégio. Eu tinha um de versos. Bjs, V. (Vera Verissimo), Porto Alegre
Bacana esta tua crônica. Hoje estás sendo lido de uma pequeníssima aldeia na Alemanha. Um abraço. Mano (Eduardo Coelho Pinto de Almeida), Alemanha
Tempos felizes – Agradecemos a eles por nos terem proporcionado a oportunidade de um período mais alegre em nossa juventude. Podem deixar descer um pouquinho de lágrimas, mas só um pouquinho. Marco Mazzoni, Rio

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