É idéia dominante que o paulistano Iguatemi foi o primeiro shopping do Brasil, o que não é verdade. Inaugurado em novembro de 1966, o Iguatemi (a atual Avenida Faria Lima chamava-se Rua Iguatemi) foi o segundo, ainda que sob a mesma inspiração. O primeiro foi o Shopping Center do Méier, bairro carioca onde nasceu o Millôr Fernandes, portas abertas em 27 de agosto 1965, e incorporado por Estanislau Vitoldo Zaremba, falecido ano passado. Méier e Iguatemi continuam faturando muito bem.
O supermercado pioneiro trazia no nome o seu espírito inovador: Sirva-se. Era paulistano e foi inaugurado exatamente um ano antes do Getúlio despedir-se da vida “para entrar na História” – 24 de agosto de 1953. O Sirva-se não existe mais.
Hoje, porém, esta crônica é sobre apenas uma das visões de Delmiro Gouveia, um empreendedor de múltiplas visões, nascido em Ipu, Ceará, em 1863, na época um distrito de Sobral. Sobre ele, produziram o filme Coronel Delmiro Gouveia, de 1977, de Geraldo Sarno, com Rubens de Falco (meu colega no curso primário e, depois, um dos atores do grupo Jograis), filme ao qual, infelizmente, não assisti.
Como citei shopping e supermercado, vale contar a história do Mercado do Derby.
A visão de um único homem, no Recife do final do século retrasado, conseguiu reunir, num só empreendimento, muitos conceitos e vantagens que o varejo, no mundo inteiro, levaria muito tempo para incorporar.
São evidentes, no Mercado do Derby, os pontos comuns com os futuros supermercados e os shopping centers. Isso no ano de 1899!
O Derby é um bairro do Recife onde Delmiro Gouveia montou o seu Mercado com 129 metros de comprimento por 28 de largura. Com 18 portões, um pavilhão central superior com vista panorâmica do interior, 264 compartimentos com balcões foram dispostos em três ruas paralelas. Chafarizes e torneiras, além de decorativos, davam o tom de modernidade, já que a água encanada era coisa rara, assim como a iluminação elétrica, novidade absoluta. A iluminação diurna e a ventilação eram resolvidas por 112 janelas do tipo veneziana.
Defronte ao Mercado, um grande jardim, um carrossel e a clássica construção para abrigar as bandas das retretas. Ao lado, uma hospedaria de luxo, bar, restaurante e salão de jogos. E, supremo requinte, um velódromo pois, na época, as corridas de bicicletas empolgavam os jovens da sociedade. Coroando o empreendimento, Delmiro criou uma linha direta de bondes do centro do Recife ao Derby Club.
O gigantesco espaço oferecia vantagens de preços porque comprava direto, em grandes quantidades, do produtor ou de grandes atacadistas, usando a mesma política quanto aos importados. De dia, vendia tudo o que um mercado vende e, à noite, tecidos, artigos importados e novidades. A mobilidade nas ofertas, os preços, o sucesso e a inveja agruparam negociantes próximos ao poder político que começaram a criar dificuldades para o mercado de Delmiro, logo após a inauguração parcial, em 13 de maio de 1899.
Nessa época, o poder político de Pernambuco pertencia a Rosa e Silva, então vice-presidente da República, o que levou Delmiro Gouveia a tentar um contato com ele no Rio, a capital federal. Rosa e Silva não recebeu o empresário e teve a temeridade de enfrentar a sua perseverança. Resultado: em plena Rua do Ouvidor, então a capital federal da elegância e a maior caixa de ressonância do País, Rosa e Silva teve de correr das bengaladas de Delmiro e refugiar-se, não em alguma embaixada, mas na Chapelaria Inglesa.
Esse episódio hilário teria, mais tarde, conseqüências dramáticas. Já funcionando com todas as suas instalações, um incêndio criminoso destruiu o Mercado do Derby na madrugada de 1º para 2 de janeiro de 1990.
A repercussão na opinião pública não poderia ter sido pior e diversos jornais, em sinal de protesto, usaram sua arma mais poderosa: deixaram de circular no dia seguinte.
Foi assim que o primeiro embrião do supermercado e do shopping center, no Brasil, desapareceu nas cinzas, deixando hasteada, na memória do comércio, uma viva bandeira de modernidade.
Eu, por minha vez, cada vez que passo por um chafariz de shopping, dou minha barretada – com um chapéu imaginário – em homenagem ao grande Delmiro.
Inté.
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Propaganda: a primeira campanha bem sucedida foi da Serpente – vendeu a Adão e Eva o hábito de comer maçã.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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