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Depois da Saraiva

Eu nunca havia visto nada parecido. A tempestade de gelo durara longos minutos e parecia que nunca ia terminar. Meu avô coçou a hisurta …

Eu nunca havia visto nada parecido. A tempestade de gelo durara longos minutos e parecia que nunca ia terminar. Meu avô coçou a hisurta barba branca e resmungou que era a mais violenta saraiva que caira naqueles campos, desde os tempos de revolução. Mas, para o menino criado na cidade, o primeiro encontro com a fúria bruta da Natureza foi mais do que susto, foi deslumbramento.

Até onde a vista alcançava, os campos estavam brancos, cobertos por pedras de gelo, algumas do tamanho de limões. Lentamente, uma fina névoa se ergueu do açude e deslizou pela várzea, alcançando a casa e o renque de eucaliptos. Escalei um dos moirões da mangueira e a névoa passou silenciosa, esgueirando-se sob meus pés e envolvendo os cavalos. Parecia que eu sonhava de olhos abertos e que poderia caminhar sobre nuvens.

Logo, a voz trovejante do avô Picurra me chama de volta à realidade. Eram ordens aos peões, que corriam atarefados, consertando os estragos. Uns subiam nos telhados e trocavam telhas quebradas, outros arrastavam para longe os galhos arrancados das árvores. Enquanto isso, as mulheres da casa se ocupavam em recolher as galinhas, patos e gansos mortos pela saraiva.

Seguido pelo cão pastor Profeta, o avô entrou na mangueira para olhar os cavalos, que pateavam no lodo preto, os olhos esgazeados de pavor. Caminhou entre eles, passando a mão nas crinas e sussurrando, como que dizendo orações. Pouco a pouco, os garanhões se acalmaram, bufando e espetando as orelhas para a frente.

Um sol pálido brilhou entre as nuvens, aquecendo os campos. Caminhei pela grama molhada, sentindo o frio do gelo sob os pés descalços. Desci até a várzea, ainda coberta pela névoa que chegava até minha cintura. Ouvi o relinchar dos cavalos. Os peões estavam abrindo as porteiras e a tropilha disparou para os campos, as crinas ao vento, livres do medo.

De longe, chega a voz de minha avó mandando recolher lenha seca para o fogão. Logo depois, um fio de fumaça branca sobe da chaminé para o céu azul-lavado. O negro Edu chega com um borrego de menos de um ano na garupa. Debaixo do cinamomo, o tio Alvinho afia os cuchillos e alguém acende o fogo na vala. Me afasto para longe, pois sei que o avô não quer crianças por perto quando se sangra um animal.

A vida na fazenda do Passo Grande estava voltando ao normal.

No meio da tarde, o pessoal se dispersa e retoma sua faina. Sob o céu limpo, o gelo nos campos cintila aqui e ali e do sudoeste chega um vento leve, perfumado por laranjais e limoeiros. Vejo o peão Edu encilhar o zaino do avô e fico a olhar, sonhando cavalgar um dia um animal como aquele.

Sinto o cheiro de palheiro e o avô Picurra chega do lado dos galpões. Traz nas mãos freio e buçal, enfeitados com anéis de prata. Rondei um tanto, até tomar coragem para perguntar quando poderia montar igual ao Tio Alvinho. O avô meneou a cabeça:

“ – Nunca, meu neto. Cada um nasce para fazer uma coisa. No campo, a gente vive e morre no lombo do cavalo. Guri de cidade como tu, tem é que estudar para ter um anel no dedo.”

Vê meu desalento e emenda:

“- Montar como o Alvinho, não sei, mas uma passeada, é prá já.”

Me ergue no ar e quando vejo, estava sobre macios pelegos brancos, longe do chão, no grande cavalo zaino, que tinha a fama de não deixar ninguém chegar perto.

Então conta:

“- Este é um cavalo crioulo. Eles andam pelas coxilhas há uns 400 anos. Foram domados pelos charruas e não sabem o que é frio nem calor. Não precisam de muita água nem de muita comida. São companheiros para qualquer peleia.”

E manda Edu montar e conduzir o zaino a cabresto, recomendando ficar atento às jararacas e buracos de tatu. Passamos pelo meio da cavalhada, que pastava calmamente na várzea. Atingimos o açude, mas não se podia ver a água – a névoa cobria tudo, da taipa até as margens do outro lado.

Voltei-me nos arreios e, ao longe, estava a casa grande e meu avô posto com a mão posta em pala sobre os olhos. Senti o calor do sol na cabeça e o assovio do vento nos ouvidos.

Segurei um engasgo, estranhando aquela emoção que tomava conta de mim, me deixando zonzo. Rezei para que aquele dia nunca terminasse.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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