“Desserviço
Duplamente inqualificável o MEC distribuir livro didático que admite erro de português e se recusar a recolhê-lo.
Vai contra a necessidade crucial de se melhorar a qualidade do ensino público básico. Por incrível que pareça, o ministério, ao contrário, contribui para degradar o próprio ensino.” (Opinião, O Globo, 17.05.2011).
“Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes.
A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta.
Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal. Assim, os aspectos que vamos estudar sobre a norma culta podem ser postos em prática tanto oralmente como por escrito.”
(Trecho de um capítulo do livro Para viver melhor, de Heloisa Ramos)
“Eu não admito mais que alguém escreva que o nosso livro ensina a falar errado ou que não se dedica a ensinar a norma culta” (Heloisa Ramos, O Globo, 17.05.2011).
Tinha eu entre cinco a seis anos de idade e vinha me alfabetizando enquanto minha mãe costurava. Sentado no chão, recortava as letras das manchetes de jornais velhos e quando duas letras formavam uma sílaba, minha mãe “cantava” o som. Aos poucos, comecei a formar “Ivo viu a uva” e “‘montar” frases.
Certa noite que meu pai chegou do trabalho, peguei o jornal que ele trazia e soltei bem alto: “catastrófe”. Mais alta foi a reação dos meus pais e das duas irmãs caindo em gargalhadas. Não sei quanto tempo levei para arriscar outra leitura em voz alta, mas as gargalhadas levarei comigo para sempre.
A repercussão e a quantidade de comentários sobre a minha última coluna aqui e o livro Por uma vida melhor obrigaram-me a ir mais fundo no assunto e ler alguns capítulos do mesmo.
Essa leitura acusou a enormidade da falácia condenando o livro com afirmações de pessoas que não conhecem o mesmo e aceitaram palpitar baseadas no “li ou ouvi falar”.
A Educação para Jovens e Adultos (EJA) é uma forma de ensino da rede pública no Brasil, com o objetivo de desenvolver o ensino fundamental e médio com qualidade, para as pessoas que não possuem idade escolar e oportunidade. São, na maioria, de acordo com o EJA, “trabalhadores/as, empregados/as e desempregados/as que não tiveram acesso à cultura letrada”.
Uma emissora de TV gravou crianças numa sala de aula, como se elas fossem os leitores alvo do livro, em vez do público ao qual se destina. Não seria o caso de uma ação exigindo uma matéria com o pingo no i?
A própria linguagem culta da obra só pode ser entendida por jovens e adultos, jamais por crianças.
Os veículos de comunicação, em grande parte, puseram a merda no ventilador e espalharam a ideia que “o livro ensina errado”. E a opinião pública embarcou numa canoa mais furada que peneira.
Um dos objetivos do livro é o de aceitar o aluno falando “catastrófe” e ensinar a pronúncia correta, exatamente como o meu pai fez comigo.
Não tenho ideia de quem começou essa falsa acusação sobre o livro, mas seja quem for, envolveu a maior parte do Jornalismo brasileiro num vexame tão grande que até parece um trote.
O boato e a fofoca extrapolaram para o Congresso, e o senador Álvaro Dias (PR) não deixou por menos, ao afirmar que estão transformando “a ortografia em pornografia gramatical”. O senador confundiu ortografia com gramática. Já a procuradora da República Janice Ascari apelou para a metáfora criminal ao afirmar que estão cometendo “um crime contra os jovens”. Face à qualificação cultural de ambos, é óbvio que não leram o livro, não se informaram a respeito e soltaram, assim mesmo, os seus torpedos.
Quando o assunto começou a ser reposto em termos verdadeiros, através de algumas colunas assinadas da imprensa, o livro sumiu do noticiário e os meios de comunicação resolveram que o melhor remédio para a indigestão é o silêncio. Assim como o livro não ensina errado, o nosso Jornalismo tem seus momentos de erro absoluto. É o caso.
A quantidade de pessoas e de instituições que resolveram pegar a carona errada nessa discussão prova que ainda existe uma ponderável parcela da opinião pública que não se contém e dá milhares de pitacos sabendo tudo de nada. Como diria um sucessor do Conselheiro Acácio, “faz parte”.
Cérebros iluminados da nação não perdoaram o livro por escrever que se deve aceitar a fala errada. Quanto ao “entender” o errado – e não “ensinar” o errado –, a verdade é cruel: fala-se errado neste país todo. No idioma falado “oficial” do povão de Porto Alegre, o pronome “tu” “rima com “vai” e nesse “tu vai” vão os verbos todos; em Minas, o “inho” virou “im” e, no Nordeste, tente fazer um homem do povo pronunciar as palavras proparoxítonas. É ou não é, Padim Ciço?
O reparo que faço ao livro é dar ideia que os usuários da linguagem culta são da “classe dominante”. Revisores e tradutores, por exemplo, dominam o idioma e, quase sempre, só isso. Eles fazem parte, como este humilde escriba, das classes dominadas.
Inté.
Em tempo:
As línguas românicas ou neolatinas como português, espanhol, italiano, francês, romeno, catalão e dezenas de dialetos são todas originadas do Latim, mas não do Latim culto e sim do popular, já todas despidas das declinações. O berço do nosso Português é o Latim popular.
Este texto foi originalmente publicado em 30/05/2011

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