Como nem sabia que fecharam a tampa do caixão, achou que havia acordado.
A mente recebeu um aviso de que não acordaria mais. Tentou saber onde se encontrava. Não achou resposta.
Pensou se já estaria consumado em cinzas, como pedira. Sem resposta, mas não enxergava corpo nenhum.
Deu-se conta que não havia corpo nem nada. Não estava cego nem enxergava. Mas, então, como o pensar? Pensamento é energia, achava. De onde a fonte, então?
Deu-se conta do ridículo, um morto questionando a única herança de vida.
Percebeu que estivera certo em nunca haver sido ateu. Sua opção agnóstica estava confirmada. Esse seu pensar era impossível de alguém supor.
Sua ignorância sobre o além estava gratificada. Pelo menos nesse assunto fora humilde.
Nunca aceitara as invenções dos outros sobre a ignorância. Estava um morto feliz, se é que morto está alguma coisa.
Voltou-se para a vida que deixara. Corrigiu-se: que o levara.
Achou que o trajeto doera pouco, mesmo sabendo que levavam tudo. Levaram, mas sabia que o fim é o fim e ponto final. Ou sobrara um fiozinho de nada?
Poderia ressuscitar alguns momentos?
Aquele patinete feito a mão, só para ele, podia? E o primeiro banho de mar? Ruth, a professora, sete anos e o coração apertado? A ereção na primeira vez que fez a barba? Os primeiros livros?
Deu-se conta que gostaria de fazer a seleção dos grandes momentos. Lembrou-se da delicadeza de Álvaro Moreyra: “As amargas, não”.
Quando um simulacro de sorriso tentava construir-se, a mente recebeu um aviso: “Despeça-se, você só tem cinco minutos para embarcar no definitivo”.
Entendeu que estava no estágio antes do ponto final, um clima calmo, quase gentil.
Tentou escolher um tema para os minutos finais e tomou a decisão radical: “Quero sair como entrei, em absoluta ignorância”.
Recebeu, como uma improvável cortesia do Aquino, o antigo professor de Latim, o que pretendia:
– Requiescat in pace.

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