A histórica patrulha moral, que, durante décadas, assolou e intimidou a liberdade de ser e pensar, neste Porto, deu lugar a um território estranho. Para a maioria das pessoas que vivem aqui, quase tudo é indiferente. É indiferente o bar ter ou não ter música ao vivo, assim como é indiferente ver um espetáculo de rua no Brique, como também é indiferente sentar em cadeiras na calçada ou dentro do bar. À exceção de ser de direita, ou de esquerda (não por opção, mas por atitudes) ou ser gremista ou colorado, o que aparece é uma falta de consistência nas demais escolhas.
Tenho uma indisfarçável desconfiança de quem me diz que é autêntico.
Vejo escolhas, conscientes e “assumidas”, pela coisa boçal, pelo vulgar, o grosseiro, em nome deste “valor sagrado” que dá o poder de encher a boca e dizer “Eu sou autêntico”. Ou “Eu sou autêntica”, mas não dizem, um autêntico o quê. Quando estas pessoas se autorizam intimidar, ofender, constranger ou desrespeitar alguém, em geral o fazem sob a justificativa desta autenticidade. Nunca ocorreu a nenhuma delas que o substantivo autenticidade dá a característica, mas não qualifica nada. Ao se analisar um monte de cocô de vaca, por exemplo, chega-se à conclusão que não é cocô de bugio, portanto, trata-se de autêntico cocô de vaca. Assim, uma boçal, ou um boçal, quando brada a sua autenticidade, se sente autorizado e confortável na sua boçalidade, mesmo que não saiba trata-se de um autêntico boçal.
No entanto, se a gente parar para pensar, Porto Alegre tem o centro da cidade, lugar de gente bonita, de ambientes com certa fragrância no ar, uma essência com um buquê persistente e inconfundível de ácido úrico. Até nossos bêbados e drogados têm uma certa altivez, uma autoestima existencialista, um desencanto, quiçá poético, algo romântico, por que não? E o que dizer daquelas pessoas que desfilam seus atributos encantadores nas ruas transversais, entre a Cristóvão Colombo e a Farrapos. São verdadeiras misses, o João, o Fernando, o Cardoso. Aquela voz em falsete é fantástica, a gente chega a se arrepiar, de medo. Travesti não é homem, não é mulher. Não se sabe quem está ali, o que pretende e o que é capaz de fazer. Não se sabe. Só se sabe que não é um homem, não é uma mulher e também não é uma árvore. Depois do nosso pôr do sol cartão-postal, é espantosa a afluência de políticos, empresários e respeitáveis chefes de família, todos curiosos para descobrir a verdadeira natureza daquelas criaturas.
Porto Alegre ainda tem a Azenha, aquela linda rua, com suas lojas bem cuidadas, com projeto visual bacana. Uau, o Belém Velho, o Partenon, a Bom Jesus, a Divinéia, a Maria Degolada, a Cruzeiro, o Humaitá, tudo isso não é demais? Estava deixando de lado a nossa Av. Farrapos e suas boates pitorescas, suas glamourosas lojas de autopeças. No século passado, os maridos moderninhos levavam as esposas no Gruta Azul, “para elas verem uma puta de verdade”. Não é excitante? E, quanta injustiça, como esquecer da nossa amada Voluntários da Pátria? Carinhosamente chamada de “Volunta”. Já viu aquela quadra da Santo Antônio entre a Voluntários e a Farrapos? Ali estão as nossas putas velhas e doentes, resistindo com bravura farroupilha. E aqueles homens, sentados na soleira das biroscas, encardidos e inchados de cachaça, eles estão sempre rindo, já notaram?
E quanto aos nossos proxenetas? Os sacanas que seduzem as nossas putinhas do Interior? Já ouviram falar dessas histórias? Dostoievski é fichinha, Anton Tchekhov é um amador. É previsível, elas são pobres e inocentes, como só podem ser pobres e inocentes as meninas que vêm dos grotões dos municípios distantes. Uma prima que veio para a cidade providencia tudo. A prima é amante do gigolô e ganha comissão sobre meninas aliciadas. Ao chegar da rodoviária, mal põe os pés na pensão imunda, a bobinha é forçada a fumar crack. Pronto, daí em diante ela é um robô de carne e faz qualquer coisa para ganhar mais uma tragada da maldita pedra fumegante. São dramas barra-pesadíssimas. Dariam belíssimos curtas para a RBS, não é mesmo? Matéria-prima aqui é que não falta.
Ah, meu Deus, quando escuto aquele jingle, aquela musiquinha da Dona Isabela, eu me emociono. Porto Alegre é demais, com sua alegria juvenil, com seus protocolos engomadinhos, suas convenções suburbanas e suas churrascarias lotadas nos domingos. (Oh, Deus, será que eu mereço tanta felicidade?) Vou parar, estou todo arrepiado, estou nas bordas de uma epifania, quase em alfa. Porto Alegre nos deixa assim, com esta idiotia prazerosa, com um otimismo publicitário. Como já me disse um amigo: viver em São Paulo é bom, mas é uma merda.Viver aqui é uma merda, mas é bom.

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