Colunas

Deslembranças

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“A única e verdadeira viagem

é aquela que se faz na memória.”

Carlos Drummond de Andrade.

***

Poucos poetas além de um Drummond ou um Manuel Bandeira sabem descrever a misteriosa alquimia da memória afetiva. Eles recolhem palavras ao vento para esculpir versos ou frases que replicam com inacreditável semelhança, lembranças (ou sonhos?) que nos assombram nas noites sem lua. Eu lembro bem quando via minha tia tomando chá com biscoitos e na mesma hora sentia na boca o sabor das madeleines de Marcel Proust. Até mesmo hoje, os versos de Manuel Bandeira sobre os casarões de sua infância no Recife me conduzem de volta ao sobrado da Vasco da Gama onde fui uma criança feliz.

***

Li um famoso neurocientista explicar que nossa memória afetiva é um desejo inconsciente de permanência no passado. Mas a boa poesia e a literatura também nos falam sobre a permanência. Em sua busca pelo tempo perdido, Marcel Proust escreveu que a memória não reside apenas no cérebro, mas está presente em todo o corpo:

“Parece existir uma memória dos membros, 

pálida imitação da outra, que dura mais tempo, 

assim como certos animais ou vegetais ininteligentes vivem mais que o homem. 

Nossas pernas e os braços estão cheios de lembranças entorpecidas.”

Para os críticos, Em Busca do Tempo Perdido, embora percebido como uma narrativa exemplar da memória, não reproduz as lembranças reais do escritor, mas as memórias fictícias de um personagem-narrador chamado Marcel. Depois de visitar a copiosa escrita proustiana, os poetas precisaram de escassas palavras para dizer o mesmo. Como Carlos Drummond de Andrade:

“…de tudo ficou um pouco”.

Ou Alvaro de Campos, quando lamenta suas perdas:

“Porque esqueci de quem fui?

Porque deslembrei quem eu era?”.

“Fiz de mim o que não soube.

E o que podeia fazer de mim, não o fiz”.

Consciente de que era feliz sem o saber, faz um heteronômico explicar o que sente:

“Mas a saudade que sinto

Não é nem do passado nem do futuro”.

***

Curiosamente, foi uma distante poetisa, a indiana Kiran Desai nos dizer de como transformamos o passado:

” Cada vez que você olhar por sobre o ombro

vai enxergar um passado diferente daquele

que você deixou para trás”.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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