O Destino é geralmente concebido como uma sucessão inevitável de acontecimentos relacionada a uma possível ordem cósmica. Portanto, segundo essa concepção, o destino conduz a vida de acordo com uma ordem natural, da qual nada que existe pode escapar. (Wikipédia)
Estou sem assunto.
Então, tudo que eu escrever hoje é fruto do destino de eu não ter assunto.
Leitores, vocês e eu temos que fazer agora uma corrente para que, pelo menos, o destino saiba escrever.
Já disse e repito que odeio modismos, seja ele uma tatuagem ou vestido se arrastando pelo chão, mesmo que varra a minha casa.
Já um decote, que entrou em moda há anos, quanto mais ousado, mais me faz esquecer que odeio modismos e fico torcendo para que o mundo se transforme, rápido, numa colônia de nudismo, já que as mulheres desistiram da minissaia, cuja economia de tecido quebrou diversas tecelagens inglesas. O nudismo no verão seria moda com minha adesão total, além de endossar o relativismo de Einstein, ou seja, que até meus ódios são relativos.
Na minha época de ginasiano, adorava quando o professor dava um provérbio como redação, como aquele que dá direito à esperança de acordar depois do meio-dia: “Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”. Eu fundia a cuca, mas conseguia dar lógica a uma negação do provérbio.
Outro provérbio digno de desmentido é aquele da sujeição face à realidade: “Quem espera sempre alcança”, que exige, até, uma resposta imediata: “Quem não espera alcança antes”.
Há provérbios dignos de insultos à lógica, como “Quem não ajuda, atrapalha”. Atrapalha em quê, cara pálida? Quem atrapalhou o fato de eu estar sem assunto?
Já cometi alguns crimes proverbiais, mas todos indesmentíveis, como “Sala de espera é o túmulo de tempo” ou “O burro só come paté de foie gras quando acaba o capim”.
Voltando ao destino, vejamos se é lógica a concepção comum de que ele é uma coisa que acontece por ser inevitável que acontecesse. Ora, qualquer coisa acontece pelo simples fato de acontecer, e seja qual for o acontecimento, por mais inusitado, ele é produto de fatos, de uma coincidência e não de “uma ordem natural da qual nada que existe pode escapar”.
Para um ímpio, como eu, amasiado com a lógica, tudo de inusitado que acontece é produto de uma coincidência, pois todos os fatos que geram a coincidência são fatos, como um raio que cai na cabeça de um infeliz não é destino, mas apenas uma infeliz coincidência entre um raio e uma cabeça.
Acreditasse Benjamin Flanklin em destino e, certamente, não teria se preocupado em criar, em 1753, o para-raio, um notório interventor no destino dos raios.
Todo esse palavrório aparentemente inútil tem um propósito claro, óbvio, o de não deixar que nossas cabeças se deixem trair por significados que escondem o verdadeiro sentido das coisas, coisa corriqueira nos provérbios e que nem sempre traduzem coisas verdadeiras como a lucidez de Shakespeare: “Se a rosa não se chamasse rosa, seria ela, porventura, menos perfumosa?” ou “Ri-se da cicatriz quem nunca foi ferido”.
Fosse eu um mal-educado e diria: Destino é a mãe!
Educado que fui, deixo para cada leitor a tarefa de dar destino a esta coluna.
Inté.
Vitrine (Comentários dos leitores sobre “Nootropil”, coluna anterior)
Bonito, Mario, muito bonito! Rodrigo Sá Menezes, publicitário, São Paulo
Jovem Mario, sempre agudo. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife
“Tio” Mario, adorei! Obrigada. Bjssssss. Dani (Suely), São Paulo
Querido tio Mario, achei linda demais a coluna de hoje. Não sei se vou lembrar sempre do Nootropil, mas o Blim Blom Blim Blom eu nunca vou esquecer, tenho certeza. A citação do Neruda é demais… Vou passar adiante hoje mesmo. Um beijo com saudades, Ju (Juliana Farah), psicóloga, São Paulo.
PS. Fui atrás do texto original do Neruda e descobri que não é do Neruda… É da Martha Medeiros!
Mario, estou comovida, emocionada, coisas assim, com o que acabei de ler. É lindo e doído!? Continuo lhe amando muito, lhe admirando muito e com MUITA saudade. Também estou gratíssima por receber “você” aqui toda semana. Abraço apertado. Lúcia Aguiar, funcionária pública, Fortaleza
Conseguiste uma adesão ao Nootropil. Tua coluna ficará, como tantas outras. Não adianta fugir de uma certa verdade, guri, és um poeta. A memória é aquele tesouro que temos e dele não sabemos, pomos onde não estamos, e nunca estamos onde a pomos. Bj. Vera (Verissimo), psicóloga, Porto Alegre
Marião, obrigado pelo brinde. Extraordinário. Abração, Monserrat (José), jornalista, escritor, Brasília/Rio
No site Coletiva.net, meu amigo e editor, cidadão eterno de Vila Isabel, escreveu no comentário da minha coluna:
A dor é a sentinela da saúde “A dor é a sentinela da saúde”, palavras de um médico que ouvia mais de 20 queixas dessas por dia. Nootropil só quando a memória despregou-se e ensaia os primeiros voos de fuga do seu habitat original. Em certos casos nem assim. Basta um bom sono, daqueles que recuperam os desvarios da noite anterior. A máquina que foi dada ao homem para viver, amar, ter sensações incríveis e, enfim, procriar… ela é complexa. É tão perfeita que pode adiar decisões ao mesmo tempo que precipitá-las, navegar a favor e contra correntezas, andar, voar ou simplesmente permanecer imóvel à espera de algum sinal que só o dono da máquina saberá decifrar. Tudo isso de nada vale diante do deslumbramento. Um pôr de sol, uma fêmea jovem a sorrir em fugidia troca de olhares, a volta do corpo à procura de uma confirmação, o golpe extremo da conquista ao se ajoelhar diante dela, dominando-a com o olhar de baixo para cima, uma preparação instintiva para a dança do acasalamento ao perceber ameaças de cumplicidade… toda essa música me afasta da dor e do remédio da memória. Quem falou aí em Nootropil? Léo Christiano Alsina, Rio
Citação: Na coluna anterior citei um trecho dado como sendo de Pablo Neruda. Minha sobrinha, Juliana Farah, alertou-me, baseada em matéria de O Estado de São Paulo, que o texto, um poema, na verdade é da escritora Martha Medeiros. O mais intrigante é que quem me fez engolir a falsa autoria, no Google, teve o trabalho de traduzir o longo texto para o espanhol, onde fui testar a certidão de autoria e saí ludibriado. (M.A.)


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