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Ditadura

Escrevi a pedido da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2003, Ato contra atos, uma leitura pública “descomemorativa” dos 35 anos da assinatura …

Escrevi a pedido da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2003, Ato contra atos, uma leitura pública “descomemorativa” dos 35 anos da assinatura do Ato Institucional nº 5 – Al-5, ato no qual a ditadura oficializou o Brasil como um Estado assassino. Participaram comigo da leitura, na Casa de Cultura Érico Verissimo, Porto Alegre, Ivette Brandalise, Cristina Zanini, Marlene Ruperti, Armando Ferreira Filho, Hugo Cassel, Milton Mattos, todos companheiros do antigo Teatro de Equipe e a jovem atriz Valéria Lima, cooptada como participante especial.

Em 60 minutos, entre informações nada hilárias, momentos de relaxamento, como o abaixo:

Milton – João Paulo Burnier?

Cristina – Louco ou o que?

Mario – Foi tudo, mas, hoje, felizmente, é apenas um morto que a família não quis dizer onde foi enterrado.

Marlene – E a Censura?

Ivette – O Mario é tão radical contra a Censura que pode até torturar aqueles tipos de censores…

Mario – Torturar não, que minha mãe nunca fez a vida, mas matar, sim…

Armando – Matar?!!!

Mario – Calma, quando digo matar não é assassinar, é julgar, condenar conforme o crime e, se o caso, executar. Mesma coisa que eles fizeram com as obras de arte, mas sem julgamento… Ou castrar, para evitar a reprodução… Assim censor, quando filho da puta, acaba em si mesmo…

Cassel – Essa é ótima, esterilizar as censoras filhas da puta…

Mario – Castrar os censores beleguins de ditaduras. Um Ministro da Justiça comandando a Censura teria que ser castrado…

Milton – Pois aconteceu. O Armando Falcão permitiu proibir livro de um Rubem Fonseca…

Valéria – O Armando Falcão? Isso aconteceu? Acho trágico.

Mario – E foi. Na ditadura só havia uma grande sacanagem pra se fazer em cima dos empregadinhos dos ditadores: quando a gente pegava o telefone e ouvia um click, sabia que ele estava sendo grampeado. Tinha “araponga” na escuta. Então o papo rolava mais ou menos assim:

Marlene – Pois é, querida, não posso falar agora, há uns filhos da puta na escuta, uma gentinha de mães anônimas… Você sabe, né querida, quando um espermatozoide com sífilis consegue vingar e nasce, sabe o que acontece, não sabe? Vão trabalhar todos na escuta, né querida?

Cristina – Sim, mas só os mais filhos da puta, né? Merdinha qualquer não entra, nem com curso intensivo…

Marlene – E dizer que tanta gente boa morre de câncer…

Cristina – Mas não adianta rogar praga, essa gente não morre de câncer…

Marlene – Mas por que, querida?

Cristina – Ora querida, o câncer não aceita…

Autor

Mario de Almeida

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