Não é por nada não, mas a humanidade está precisando da vinda de um novo Messias. Não é por nada. É por tudo.
(Eu mesmo)
Creio haver contado aqui que fui contato publicitário da Viação Itapemirim quando ela deu início à sua expansão. No ano de 1967, a Itapemirim comprou uma linha de ônibus Salvador/Rio/Salvador e fui encarregado de propagar o fato, principalmente na Bahia.
Depois de acertadas as ações convencionais de propaganda, Chico Buarque aceitou meu convite para cantar três músicas no coquetel que organizei para sacramentar a operação. Meu objetivo era claro: as esposas das principais autoridades, inclusive governador e prefeito, obrigariam os maridos a marcar presença. Não faltou ninguém, a não ser convites, tanto foi o povo para quem eu disse “não”. O prefeito, nomeado pela Ditadura, era Antonio Carlos Magalhães.
Tempos depois, os militares já nos túmulos ou de pijamas, aguardando o toque de recolher, o filho de Antonio Carlos, Luís Eduardo Magalhães, deputado federal pela Bahia, foi eleito presidente da Câmara.
Num desses episódios escandalosos em que a Câmara envergonhou o país, Arnaldo Jabor, em O Globo, escreveu uma crônica sobre o escândalo em pauta e não poupou aquela Casa que deveria ser um exemplo de cidadania, mas não era.
Dia seguinte, Luís Eduardo, sem citar nomes, mas deixando claro que se referia ao Jabor, taxou-o de “desqualificado”. Ao ler o pronunciamento, fui à enciclopédia e no verbete “Jabor, Arnaldo”, lá estavam os serviços prestados pelo cineasta às artes e ao pensamento nacionais. Fui ao “Magalhães” e, entre dezenas, não encontrei o presidente da Câmara. Venci a preguiça e escrevi uma carta ao Jornal do Brasil e a O Globo, com cópia ao deputado, afirmando que, pelo menos em relação à enciclopédia, ele não era qualificado. As cartas não foram publicadas, coisa que eu sabia, pois as garras do “Toninho Malvadeza” são temidas por quem tem e não tem o que temer.
A morte prematura roubou de Luís Eduardo as glórias e qualificações que, por certo, a Bahia lhe reservava.
Tempos depois, o senador Antonio Carlos, na presidência do Senado, envolveu-se num escândalo por conseguir acesso a uma votação “secreta” feita por digitação eletrônica. Percebendo ser inevitável a cassação de seu mandato, para evitar a perda de seus direitos políticos por um bom período de tempo, renunciou e, nas eleições seguintes, o “pai-de-santo” da Bahia foi reconduzido ao Senado.
Atualmente, Antonio Carlos Magalhães Neto, sobrinho de Luís Eduardo, seguindo a profissão da família, é deputado federal. Em entrevista ao Jô Soares, conforme fiquei sabendo pela Internet, o neto declarou: “Quem renuncia para não perder o mandato é culpado até o fim da vida”. É óbvio que o jovem advogado tropeçou nas idéias e trocou “mandato” por “direitos políticos”. O que mais me intrigou, nessa novela familiar, é que o neto culpou o avô “até o fim da vida”.
Nunca me intrometi em problemas familiares e não vou abrir exceção, apenas avento a hipótese de que o neto foi verificar o currículo do avô na mesma fonte que eu. Na página oficial do Senado, no currículo que consta como de responsabilidade do autor, entre os muitos feitos – e são muitos mesmo – não consta o desfeito, ou seja, a renúncia. Será que ele se sente culpado até a morte ou acha que haver renunciado ao cargo de senador da República é um insignificante acidente de percurso?
Inté.
PS.
Oração ímpia:
Quatro presidentes dos Estados Unidos foram assassinados no exercício de seus mandatos: Abraham Lincoln, assassinado por John Wilkes Booth em 1865; James Garfield, por Charles J. Guiteau em 1881; William McKinley, por Leon F. Czolgosz em 1901; e John Kennedy por Lee Harvey Oswald em 1963. Não é por nada não, mas se alguém assassinar o presidente Bush, vão acontecer duas coisas: o assassino será aclamado herói da humanidade e o quinto assassinado irá para o quinto dos infernos.

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