Havia na redação da Última Hora gaúcha, início da década de 1960, um “amplificador telefônico”, uma caixinha colocada sob o aparelho para “despiorar” o som da comunicação interurbana. Na mesma época, telegrama confiável, no país, só pela Western Telegraph, empresa inglesa que operava através de cabos, que teve a glória de ter Henry Miller como funcionário, em Paris, e que, no Brasil, acabou gerando o vocábulo telegrama.
Nas grandes cidades cruzava-se diariamente com os estafetas da Western, pilotando suas bicicletas. Ao descer de táxis, no Rio, derrubei alguns. Como ainda nem se imaginava o advento do telefax e muito menos da informática ao alcance de todos, as notícias chegavam às redações via telex, sistema também usado pelas empresas para comunicação imediata com seus escritórios, ou seja, urgências não cobertas pelos malotes diários. O telefax resolvia o problema da muita demora das ligações interurbanas que poderiam até não acontecer. Apesar de Pedro II haver descoberto o telefone para o Brasil, custou-se muito a acreditar. O telex gravava mensagens em fitas de papel perfuradas, transmitindo e recebendo em tempo real, como se faz hoje pelo telefax. Lembro-me que em 22 de novembro de 1963, dia em que o presidente Kennedy foi assassinado, passei muitas horas ao lado do telex da redação da Última Hora. Com a criação da Embratel, surgiram o telefax, os sistemas DDD e DDI e as comunicações deram um salto de qualidade.
Terminada essa aula prática para estudantes e jovens jornalistas sobre o “nariz de cera”, intróito romanceado às matérias da imprensa de antigamente, passemos ao “lead”, coisa menos antiga.
Via telex, recebi em Salvador, vinda de São Paulo, a tarefa de pedir para Jorge Amado um texto dele para calendário da Rhodia, 1969, o qual teria (e teve) em cada mês um texto de consagrados escritores brasileiros.
Agora, as explicações. A ditadura transformou-me em publicitário e depois de mais de quatro anos de muita ralação, fui relaxar na Bahia, implantando a filial da Standard Propaganda naquela capital.
A Rhodia era cliente em São Paulo e fui à cata do escritor, filho de Itabuna, mas soteropolitano festejado pelos orixás da Igreja do Bonfim e paparicado pelos sacristãos dos muitos terreiros. Telefonei para o ex-deputado federal do Parido Comunista Brasileiro, por São Paulo, que conseguiu aprovar emenda pela liberdade de culto religioso e marcamos encontro, na mesma noite, numa sessão de autógrafos de um poeta, quando expus o pedido, anunciei o cachê e fechamos o negócio.
Dias depois, telefonou-me, fui apanhar a encomenda na residência dele, no Rio Vermelho, entreguei o cheque, peguei o recibo e, no táxi de volta, li o texto, uma porcaria que não fazia jus ao já acadêmico da ABL. Como eu estava de publicitário e não de crítico literário, pus a porcaria no malote e, não sendo maneta, lavei as mãos. Missão cumprida e pernas pro ar, que ninguém é de ferro, muito menos na Bahia.
Mais uns dias e meu sossego foi interrompido por nova tarefa: pedir ao escritor licença para, em vez da porcaria, publicar um texto extraído de um romance dele, escolhido, creio eu, por algum publicitário chegado às letras. Telefonei para o escritor, expus o pedido e a resposta foi pragmática: “Já descontei o cheque, façam como quiserem”, o que foi feito.
Ao esboçar mentalmente essa crônica, lembrei-me de um texto de Drummond, também para a Rhodia, e a divertida história desse cachê cujo recibo está emoldurado no escritório do meu amigo e ex-sócio Cyro Del Nero. Lembrei-me, também, que descobri um texto, talvez o único, um texto publicitário de Mario Quintana, cujo centenário, neste 2006, já começou a ser festejado com lançamento de livros.
O texto do Mario, que deve ser desconhecido até de “Quintanistas”, foi para a Renner, matéria paga publicada em…
Calma, hoje, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio, de Bagé e de outras cidades, é feriado carioca e meu estágio na Bahia foi excepcionalmente produtivo, pois ensinou-me a colocar as pernas pro ar sem o menor sentimento de culpa…
Inté.

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