Colunas

Doçuras da meninice

A casa de minha infância, na rua Vasco da Gama, não existe mais. Era uma casa pequena, mas ali vivemos anos felizes e despreocupados. …

A casa de minha infância, na rua Vasco da Gama, não existe mais. Era uma casa pequena, mas ali vivemos anos felizes e despreocupados. Um portão de ferro e duas janelas com pequenos vitrôs verdes. Na parte da frente, uma sala de visitas, que raramente era usada, com um divã, duas poltronas e um birô de escritório, com as gavetas cheias de papéis de meu pai. A seguir, dois quartos e a sala de jantar, com a porta de entrada e o corredor, que dava para o portão de ferro.

Na sala, uma janela dupla se abria para o quintal dos fundos. Nela estavam os nossos maiores bens domésticos – um aparador com as pratarias da bisavó Alice, a cristaleira da mãe, o rádio Telefunken de 12 válvulas de meu pai e, a um canto, o luxo de uma geladeira Steigleder. Era a garantia de verões
com limonada gelada e a Bock de meu pai na temperatura certa.

***

Mais adiante, o território da mãe – sua cozinha, com os imaculados azulejos brancos. A peça central era o fogão esmaltado Geral, a lenha, de onde saiam
comidinhas e guloseimas que eram nosso encanto diário.

Sobre a mesa de café, um vaso com samambaias e o indispensável fogareiro Primus a querosene. Nos armários, panelas, louças e copos arrumados por tamanho e por função. Um espaço absolutamente interditado para as nossas mãos irriquietas e desastradas.

Às seis da tarde, meu pai chegava do trabalho, jogava o chapéu Prada no sofá e entrava na cozinha, inspecionando as panelas de ferro, com a pergunta habitual:

” – E o que vamos ter para sobremesa?”

***

A mãe aprendera os segredos da culinária campeira e caseira com a matriarca Ana Augusta. Na fazenda do Passo Grande, as filhas solteiras se revezavam na cozinha, principalmente quando meu avô convidava a peonada para comer com os homens da casa. Quando uma das moças era prometida em casamento, minha avó tirava do armário da despensa uma velha lata de bonbons Sönksen. Ali estavam guardadas centenas de folhas caligrafadas, com receitas da doçaria portuguesa, que ela colecionara durante décadas.

Eram receitas dos tempos de fartura – várias dúzias de ovos, muitos litros de leite e açúcar às conchas. A mãe sabia fazer aquelas maravilhas, mas quando chegaram os tempos difíceis, ela racionava os doces, reservando-os para os domingos e feriados.

Nos demais dias da semana, nos contentávamos com postre de vigilante, o prosaico goiabada-com-queijo, que meu pai fazia questão que fosse servido com goiabada cascão Jung.

Mas não era uma sobremesa de verdade. Éramos todos viciados em doces e em nossa rua o que não faltavam eram doceiras de mão-cheia. Ao lado, do número 307, da família Starosta, vinham os docinhos de mel e nozes de Dona Esther. No 321, o casarão dos Boralhos, a cozinheira Anna preparava deliciosos cannoli, um doce italiano, que eu não sabia do que era feito, mas que era uma perdição.

Um pouco mais adiante, nos esperavam outras maravilhas para alegrar nossa gula. No Armazém Vasco, na esquina da Felipe Camarão, por alguns níqueis, o português Manuel Pereira nos vendia saquinhos de papel com mandolates e balas quebra-queixo.

Mas não deixávamos de lançar olhares compridos para o alto das prateleiras, onde se alinhavam grandes potes com frutas cristalizadas: de pêssego, figo e
casca de laranja.

***

Ao lado do Armazém Vasco, ficava o mercadinho de Dona Bertha. Vendia coisas comuns, mas a atração era um armário envidraçado, onde se alinhavam docinhos de amendoim, batata, coco, abóbora. E ali também, ficavam expostos os doces folhados chamados mil-folhas, que eram os únicos que não dava para comprar com os níqueis da minha mesada.

Quando as bandejas estavam no fim, Dona Bertha separava o último dos mil-folhas para os filhos David e Moshe, que se regalavam a mais não poder, falando, para quem quisesse ouvir, que aquele era o melhor doce da cidade.

Eu ouvia aquilo e voltava para casa, imaginando se os mil-folhas eram assim tão especiais. Quando perguntei a minha mãe se ela sabia fazer mil-folhas, me olhou com um ar divertido, mas não respondeu.

***

Meu jejum de doces estava por terminar. Quando anunciei que tinha tirado boas notas nas provas, minha mãe disse que eu ganharia de presente um prato de doce, mas não disse qual. Esqueci-me da promessa, mas na manhã de meu aniversário, acordei com um cheiro perfumado que vinha da cozinha.

Corri até lá e vi que ela mexia em uma grande panela de ferro, usando uma colher de pau. Espiei e quase chorei de alegria – eu conhecia aquela mistura borbulhante e dourada. Minha mãe estava preparando o presente prometido – uma panelada de ambrosia.

Fizemos uma festa, a família almoçava com um olho no prato e outro nos potes em cima do armário. Foi um dos melhores presentes de aniversário de que me lembro. Até fiz de conta que não notei que meus pais passaram dias tomando café preto. A mãe havia gasto a cota de leite do mês naquela inesquecível ambrosia.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.