Na introdução do meu Almanaque do Camaleão, escrevi: “Para este livro selecionei poucas crônicas que, iguais a beija-flor, saltitam a bel-prazer. As políticas, por questão de nível, ficaram de fora”.
Domingo, 29.07, lendo A História de Mora/40, um trabalho de fôlego do jornalista Jorge Bastos Moreno, publicado semanalmente em O Globo, onde ele escreve como se fossem as memórias de D. Mora, que foi casada com o “Senhor das Diretas”, Ulysses Guimarães, resolvi iluminar melhor, inda que parcialmente, esse meu distanciamento com o que acontece hoje, no Brasil, em nome da política.
O que parece alheamento é, apenas, a preservação do prazer da escrita que me move.
O nome de Tancredo Neves surgiu-me pela leitura daquele texto, pois juntava dois dos mais importantes políticos da história do país no século XX, Ulysses e Tancredo. A estatura e a trajetória de ambos explicam a questão de nível a que me refiro.
Tancredo Neves (1910-1985) foi primeiro-ministro de 1961 a 1962, depois de articular a posse de João Goulart como presidente no sistema parlamentarista, evitando uma inevitável Guerra Civil no episódio conhecido como Legalidade.
Foi vereador, deputado estadual, federal, senador, ministro da Justiça, da Fazenda e governador de Minas Gerais.
Ulysses (1916 -1992), o “Senhor das Diretas”’, foi a grande liderança na luta pela redemocratização do Brasil.
Eleito deputado estadual à Assembleia Constituinte de 1947, por São Paulo, jamais deixou a política, até sua morte, em desastre de helicóptero, no litoral de Angra dos Reis.
Deputado federal por São Paulo foi eleito por onze mandatos consecutivos.
Na sua oposição sistemática à ditadura quando, em 1973, tentaram “legalizar” o estado de exceção através da eleição presidencial do general Ernesto Geisel, por um colégio eleitoral, Ulysses lançou sua anticandidatura simbólica à Presidência da República como forma de repúdio ao regime militar, tendo como vice o jornalista e ex-governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho.
Naquela ocasião, num célebre discurso – Navegar é preciso – desmascarou a tentativa de legalizar o ilegal: [“… O paradoxo é o signo da presente sucessão presidencial brasileira. Na situação, o anunciado como candidato, em verdade, é o Presidente, não aguarda a eleição e sim a posse. Na Oposição, também não há candidato, pois não pode haver candidato a lugar de antemão provido… ]
Geisel foi eleito, naturalmente, mas onze anos depois Ulysses deu o troco, mobilizando a oposição através da candidatura de Tancredo Neves à Presidência, também pelo colégio eleitoral.
Após a grande agitação do movimento Diretas Já, liderado, entre outros, por Ulysses e Tancredo, este, em 1984, aceitou o desafio de se candidatar à Presidência da República, com o apoio de Ulysses Guimarães.
Surpreendendo a máquina eleitoral montada pela ditadura, Tancredo, em 15 de janeiro de 1985, derrotou o preposto dos golpistas, ninguém menos que Paulo Maluf que, hoje, se sair do Brasil, será preso pela Interpol.
Tancredo adoeceu com gravidade, fez cirurgias, mas em 21 de abril, véspera de sua posse como presidente, morreu.
No enterro do eleito e não empossado, Ulysses retratou o amigo: “Tancredo era um sábio. Sabia conversar, sabia ler, rezar, sabia comer e beber, sabia rir, ironizar, sabia não ter medo, sabia ser Cirineu para os amigos amargurados, sabia ver o mar, ouvir os passarinhos, imaginar com o vento, namorar as estrelas, sábio para ser suave na forma e forte na ação. Forte como a linha reta e doce como a curva do rio. Pelo bem e pela verdade, foi implacável no cumprimento da terrível sentença: não se faz política sem fazer vítimas”.
Acho que fui claro.
Inté.
Vitrine (comentários dos leitores)
Como sempre, um texto delicioso!!!! Beijos com saudades. Claudia (Almeida), Rio
Jovem Mario, obrigado por mais esta lufada. Moisés Andrade, Olinda/Recife
Gostei das notícias auspiciosas da coluna. Há várias que poderiam ser assim. Como pensarem numa bela cerimônia para a abertura da Copa e das Olimpíadas aqui, sem ter que se vangloriar apenas do mulherio pelado sambando. Que bom se colocassem o mesmo idealizador da abertura dos últimos Jogos Pan-americanos no Rio, foi uma beleza. A Dilma já disse que a nossa abertura vai ser melhor do que a de Londres porque vai ter escola de samba. Ai, meus sais! Que la Vergine delli Angeli te protegga. Beijo. Vera (Verissimo), Porto Alegre


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