Dois poetas

José Antônio Moraes de Oliveira

"Foi em um crepúsculo de vago outono que eu parti para um encontro que nunca tive".

Bernardo Soares.

O poeta era um ajudante de guarda-livros que morava sozinho, em um quarto alugado, perto do escritório onde trabalhava, no centro de Lisboa. Nos intervalos de suas tarefas burocráticas, Bernardo Soares escrevia pequenos fragmentos impregnados de lirismo. Um dia, ele encontra Fernando Pessoa em uma casa de pasto na Baixa e lhe entrega seu  "Livro do Desassossego", que viria a ser uma das obras fundadoras da literatura portuguesa no século XX.

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O lado mais intrigante deste episódio é que os dois personagens que se encontram são exatamente um só, já que o poeta Bernardo Soares é um heterônimo do poeta Fernando Pessoa. O que não altera o significado do encontro, onde surge este Livro do Desassossego, possivelmente o mais estudado e escrutinado por críticos e biógrafos de Fernando Pessoa. Do muito que se escreveu sobre Bernardo Soares, a melhor definição seria a que diz:

"Ele soube redesenhar o homem comum, anônimo e solitário de nosso tempo".

Para o crítico João Pereira Coutinho, o livro deve ser lido como uma autobiografia espiritual ou talvez como um quebra-cabeças "inacabado e inacabável" da vida que temos e daquela que gostaríamos de ter. Nos fragmentos que escrevia nos intervalos de sua faina de guarda-livros, Bernardo Soares faz como Shakespeare, quando questiona os dilemas - o ser ou não ser; o fazer ou não fazer; o sonhar com o que não se pode ter e o temer solidão e tédio. Os desassosegos de Bernardo Soares convidam a uma viagem reflexiva pela alma humana, enquanto questiona nossos paradoxos:

"Nasci num tempo, em que os jovens

perderam a crença em Deus,

pela mesma razão que os seus maiores

a tinham tido - sem saber por quê."

O próprio Fernando Pessoa ao falar sobre sua criatura Bernardo Soares, diz que era alguém que buscava às cegas um objeto que não sabia o que era nem onde estava escondido. No Livro do Desassossego, o poeta define a si mesmo como alguém que fracassou, que não encontra sentido no cotidiano do escritório de contabilidade onde passa os dias. E se diz um órfão da fortuna porque receia estar perdendo o desejo de ser feliz:

" Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou.

(...)  

Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo e reate o curso da minha existência. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Há muito tempo que não sou eu".

Mas, como acontece na poética de Fernando Pessoa, a cidade de Lisboa é um cenário constante em Bernardo Soares:

" Escrevo num domingo, manhã alta, num dia amplo de luz suave, em que, sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito põe no esquecimento a existência misteriosa de astros...".

E cabe à Lisboa acordar seu melhor lirismo:

" É domingo em mim também...".

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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