Após o almoço de domingo surgem os primeiros sinais, o domingo fica oficial, não há saídas de emergência. O que resta? Ah, sim, pegar um vídeo, ou assistir TV, ou seja, aquelas coisas que se pode fazer quando não se pode fazer mais nada. Ninguém confessa, não se toca no assunto, mas domingo de tarde não é o inferno, não é o paraíso, também não é o limbo, é domingo de tarde. São nestas horas apáticas que os casamentos passam por uma radiografia impiedosa. A mulher percebe o ventre avolumado do marido saltando pela camisa, ele observa o quanto as camadas de gordura esconderam a silhueta daquela deusa com quem se casou.
O silêncio de domingo de tarde é incômodo e quase todo mundo sabe que paira uma tensão disfarçada de calmaria, embora isto não afete a todos por que, tem gente que é o próprio domingo de tarde, sentem-se confortáveis no seu dia, no ambiente morno, indefinido, como um xuxu de hospital. Domingo de tarde, o cenário perfeito para os dramas domésticos, para alguns insigths, como se perguntar como é que vim parar aqui? Até mesmo nas delegacias surgem ocorrências surrealistas, por exemplo: mulher entra batendo o salto com força e senta-se na frente do delegado.
– Vim fazer um O.B.
– Não seria uma B.O.? (Boletim de Ocorrência) – pergunta o delegado gentilmente.
– Sim, isto mesmo – responde ela.
– E qual é a queixa?
– Dano moral.
– É como foi isso? – pergunta o delegado.
– Ele me chamou de trubufu.
– Ele chamou de que?
– Trubufu.
– Quem chamou? – reage o delegado.
– Ele, ora, o Zé.
– E quem é o Zé? Não que seja da minha conta – o delegado gosta de ironias.
– O Zé, o meu marido.
– A senhora tem testemunhas?
– Claro, o meu ex-amante tá de prova.
– E como o seu ex- amante reagiu a esta ofensa do seu marido? – o delegado está pessoalmente curioso.
– Ele riu, junto com o Zé, quero processar os dois.
– Conte melhor esta estória – o delegado se acomoda na cadeira.
– Na real estou separada do Arnaldo, o meu ex-amante…qué dizê, eu voltei para o Zé, porque o Zé que era o meu marido e eu troquei ele pelo Arnaldo, me arrependi e voltei para o Zé”.
– Sim, sim, prossiga – diz delegado impressionado.
– Aí o Zé procurou o Arnaldo e disse: pode ficar com o trubufu.
– E que foi que o seu ex-amante disse?
– Ele disse: eu fora, fica tu.
– Quem disse? O Zé ou o Arnaldo? – o delegado está confuso.
– Não sei, não sei, acho que os dois. O Zé disse que na Sexta de noite, depois de dois uisques, eu era um gata, mas que no domingo de tarde eu virava um trubufu.
– Acontece nas melhores famílias, a senhora tem o documento de identidade? Pergunta o delegado desconfiado,
– Está aqui.
– Hum…Mas aqui diz Ariosto Alves da Silva.
– Pois é, sou eu mesma. E tem mais, mudei de ideia, não quero mais registrar o O.B.
– B.O. – corrige o delegado.
– Vou embora, vou voltar para o Arnaldo. E sai batendo salto como entrou.
O delegado lembra que é domingo de tarde, queda-se olhando para o infinito, balançando a cabeça por um longo tempo, e depois, ainda com o olhar perdido, chama o seu auxiliar direto:
– Deoclécio.
– Sim, doutor.
– Me belisca.

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