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Dragões da Independência, se avexe não, moço

Só agora voltei de Brasília para onde fui assistir à posse da presidenta. É mesmo, Brasília é uma imensa maquete em proporções metropolitanas, mas …

Só agora voltei de Brasília para onde fui assistir à posse da presidenta. É mesmo, Brasília é uma imensa maquete em proporções metropolitanas, mas está longe de ser uma metrópole. Brasília não tem alma, não tem esquinas com botecos e cadeiras na calçada. Mas pelo fato de estar situada no Planalto Central, o horizonte se queda muito, mas muito longe, o que cria uma ilusão de que a abóbada celeste tem dimensões assombrosas. A belíssima cidade te põe num imenso museu de arte moderna a céu aberto, mas é só.

Por razões que não vem ao caso, recebi o convite da presidenta Dilma Roussef para assistir ao rito de sua posse, tanto no palácio, como no Itamaraty. Se estou dizendo isso aqui nesta crônica, é porque não acho que esta agenda seja rotineira para mim, que fui um guri criado na vila do IAPI, graças a Deus.

Uma vez no palácio, fiquei numa ala reservada para figuras de um segundo escalão, digamos assim. Ministros e Chefes de Estado lá em cima, no lugar das autoridades.

No térreo, onde eu estava, a maioria dos presentes era formada por deputados federais, senadores e altos funcionários federais. Num determinado momento, o meu olho sociológico começou a ver coisas que, bem sei, de um modo geral passariam batidas.

Estar ali me revelou a feiúra das pessoas que compõem aquela malta que ocupa boa parte das Câmaras e do Senado. Caramba, que gente feia. Fiquei a poucos metros daquelas caras gordas, estampadas de hipocrisia, dos sacos de banha metidos em ternos caríssimos. Ali estavam os institucionais que fazem o grosso da votação no agreste, no sertão e na periferia das grandes cidades. Muitos ao lado de suas peruas, breguíssimas, tensas e afetadas, por estarem no meio do cenário solene, no foco das lentes da imprensa, por ali e por todos os lados. Óh poder de beirada, o teu nome é mau gosto, além de nem disfarçar mais a compulsão pela sacanagem, falou Pedro Novaes?

De repente ouvi um som marcial, quase imperial, com rufar de tambores e ataques de trombetas, e virei o rosto para ver a Banda dos Dragões da Independência marchando para posicionar-se ao lado da rampa de acesso ao palácio. De trás do capacete dourado dos marciais, cai um rabo de cavalo de uns 60 centímetros, o que empresta ao pelotão uma aura de criaturas míticas. O uniforme de gala dos integrantes da banda é o mesmo da guarda palaciana, é branco e vermelho e tem um desenho impressionante, que faz lembrar os soldadinhos do exército inglês, na 2ª Guerra Mundial, que lutavam, tombavam e morriam sem perder a atitude solene.

Enquanto ouvia, a banda fazia evoluções marciais, com um desenho musical de exaltação ao poder, como uma anunciação da entrada em cena de um imperador romano –  pensei, muito reflexivo. Aquilo tudo é parte de um roteiro secular, engendrado justamente para ungir os presidentes, e agora esta presidenta, com substâncias de divindades, dentro da estratégia de sacralizar o espetáculo cívico com poderosos símbolos audíveis e visuais, para encantar os olhos das massas, seja ela classe média ou não. E, claro, nossos símbolos de nação existem para reafirmar o espírito de pátria e a legitimidade de uma posse, por exemplo.

Isso tudo que acabei de escrever, no entanto, realmente só acontece nos Estados Unidos e na Inglaterra, em solenidades oficiais.

Lá estava eu mergulhado naquelas reflexões quando, súbito, um pouco antes da presidenta chegar, a banda atacou outro tema. O tema da vitória, do tempo de Ayrton Sena, da Rede Globo. Eu pensei: não acredito no que estou ouvindo. Meu deus, que chinelagem. ************ ******** (*palavrões que eu pensei)  Bah, substâncias divinas, de onde foi que eu tirei esse dejeto? Unção do poder? Sacralizar o espetáculo cívico? E bem ali, na xinxa, tascaram o tema da Fórmula 1, Prim Prim, Rede Grobooo… isso aqui é o Brasil, il il il, ó xente! Tá pensando o quê? Sô, aqui nóis toca o que nóis goshta. E digo mais: daqui a pouco vai rolá o pancadão da lage. Se avexe não, moço. Periga até a presidente “Vilma dá uma reboladinha pros ingreis e pros gringo se adimirá.

Autor

Paulo Tiaraju

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