Eles estão de volta

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Não há tempo para pensar.
Não importa o que eles fizerem,
nós faremos melhor."

(Antigo provérbio islandês)

Em 2016, a pequena Islândia, com uma população de 350 mil habitantes assombrou o mundo do esporte quando se tornou o menor país do planeta a se classificar para a Liga Europa da UEFA. Os islandeses, que pouco conheciam sobre futebol, venceram a Inglaterra e chegaram até as semi-finais contra a França. Então, para demonstrar apoio aos seus jogadores, cerca de 8% da população islandesa viajou a Paris torcer pelo time, que era formado por professores, artesãos, agricultores e um escritor como goleiro.

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Pesquisa de 2017 da Universidade da Islândia demonstrou que 50% da população pratica como filosofia de vida um conceito que diz:

"Tudo vai dar certo, mesmo contra todas as chances de dar errado."

Um conceito que não vem dos livros, mas que está imersa na cultura islandesa ao correr dos séculos. Invasões de vikings, ora suecos, ora noruegueses ou dinamarqueses, cataclismas, vulcões e terremotos sempre estiveram presentes na crônica desta pequena rocha vulcânica plantada no meio do Atlântico Norte.

Transformar o impossível em possivel tem sido regra fundamental na história dos islandeses. Uma receita de sobrevivência que serviu como motivação para ajudá-los a transformar uma inabitável ilha vulcânica em um dos principais destinos turísticos da Europa.

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Foi no ano de 793 AD, que os pacíficos monges irlandeses do monastério da ilha de Lindisfarne foram surpreendidos pela chegada de longos navios com dragões na proa. Eles não imaginavam nem estavam preparados para o que estava por acontecer. O grupo de guerreiros armados de enormes machados que desembarcou na ilha dava início no que ficou conhecido como a Idade Viking. Um período que mudou a história - e a geografia - da Europa nos 300 anos seguintes. Segundo os historiadores, a invasão da Islândia foi seguida por incursões e ataques nas costas da Escócia, Irlanda, Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, chegando até o norte da Itália. Semearando o pânico nas populações costeiras, invadindo, matando e saqueando.

Mas quem eram estes ferozes conquistadores que se revelaram exímios navegadores? Recente pesquisa do Museu Nacional da Islândia revelou um detalhe - no antigo idioma islandês ou norreno, a palavra viking não era um substantivo, mas um verbo pque significava vencer mares e terras. Originalmente, os Vikings não eram guerreiros de profissão, mas camponeses, negociantes de grãos, ferreiros e artesões. Que, em algum momento na História, deixaram as terras geladas do Ártico para enfrentar o oceano em busca de novos horizontes. Os estudiosos não sabem definir o que os moviam - se a necessidade de sobrevivência ou uma pura vocação aventureira. E ainda carecemos de estudos que expliquem de como fazendeiros e comerciantes se revelaram exímios navegadores, desafiando o Atlântico Norte, muito antes da bússula e do sextante.

Ou como tribos primitivas desenvolveram estratégias de guerra capazes de tomar de surpresa a Europa pré-medieval. Os Vikings desembarcavam antes do sol nascer, atemorizavam povoados, saqueavam, capturavam escravos e desapareciam no mar tão ràpidamente quanto haviam chegado.

E fica a polêmica - eram guerreiros e conquistadores ou bárbaros sanguinários? Porque os Vikings também plantavam colônias, como na Groenlândia e Terra Nova e eram competentes mercadores, trocando suas madeiras, peles, metais fundidos e ambar pelo ouro, prata, sedas e especiarias dos europeus.

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Durante séculos, os Vikings resistiram às tentativas de conversão ao cristianismo, pois estavam confortáveis com suas divindades, uma versão épica do Olimpo grego. Eram deuses e deusas guerreiras, liderados pelo poderoso Odin e seu jardim do Eden era o Valhala, um majestoso salão com 504 portas, situado em Asgard, onde os Vikings mortos em combate eram recebidos com todas as honras. Crenças e lendas que alimentaram por séculos a cultura nórdica e mais tarde, foram assumidas pelo pan-germanismo do século XIX.

Enquanto os povos do Norte da Europa foram convertidos pela espada de Carlos Magno, os escandinavos foram mais habilidosos. Durante a Idade Viking, seus mercadores notaram que as melhores trocas eram praticadas entre cristãos, enquanto eles, pagãos, eram discriminados nos negócios. Os Vikings então mudam as regras da conquista - enquanto estão entre cristãos, exibem no peito a cruz cristã mas, ao voltar para casa, a trocam pelo sagrado martelo de Thor.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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