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Encontro marcado II

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Como são admiráveis as pessoas 

que não conhecemos muito bem.”

Millôr Fernandes.

 

***

Com o coração batendo como um tambor, o estagiário de jornalista entra no bar do City Hotel e mal acredita no que vê: em uma mesa ao fundo, três animados senhores conversam ao redor de uma garrafa de whisky 18 anos. Um deles acena, me chamando. Fernando Sabino e meu primeiro ‘Encontro Marcado’.

***

De perto, reconheço os outros – um é o poeta mineiro Paulo Mendes Campos e a seu lado, a figura inconfundível de Millôr Fernandes, que estava levando seu Pif Paf da O Cruzeiro para a Manchete, a nova revista dos Bloch. Devo ter ficado de boca aberta, pois Millôr se adianta, me aperta a mão e dispara um trocadilho bem ao estilo Vão Gogo:

“- Muito prazer, senhor repórter.

Junte-se a nós, somos o Trio de Marte…”

***

O que aconteceu nas 24 horas seguintes daria para encher um capítulo em minha biografia – se um dia eu ganhar uma. Foi uma entrevista a três – Fernando Sabino falando do livro, de si mesmo e das mineirices, com intervenções irreverentes dos outros dois. Volto para o jornal e escrevo a reportagem, que um chefe de redação encantado publica em página inteira, com chamada na capa e foto do escritor autografando ‘Encontro Marcado’ para o aprendiz de entrevistador.

O Encontro-Não-Marcado renderia ainda uma conversa à mineira com Paulo Mendes Campos, que parecia retraído, até que menti ter lido seus poemas em “O domingo azul do mar” e “O cego de Ipanema”. O que rendeu a confidência de que gostava mais de traduzir grandes poetas do que de sua própria poesia. Já havia traduzido Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Emily Dickinson e T.S. Eliot e “Hamlet” de William Shakespeare.

Quando chega à mesa uma segunda garrafa de 18 anos, vejo que é hora de ir. Naquele momento, Millôr pede emprestado minha caneta, pega umas folhas de papel em branco, rabisca, desenha e me entrega, falando que é o que sabe fazer. 

***

No entanto, estórias felizes nem sempre tem um happy end. Afobado em escrever a entrevista, esqueci na mesa as folhas de papel. Volto ao hotel na manhã seguinte, mas era tarde. As faxineiras tinham jogado fora os rabiscos e o autógrafo do Millôr. Mas ainda tenho comigo o “Encontro Marcado” com Fernando Sabino.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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