Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
(Fernando Pessoa)
Alguns fatos e um sonho atropelaram esta crônica que seria publicada há três semanas e dão seqüência a uma série de viagens e de hotéis.
Estávamos em Sergipe, 1983, quase na etapa final de nossa lua-de-mel cartorial – a factual havia sido cinco anos antes – que terminaria em Maceió, quando nosso anfitrião, o secretário de Cultura, propôs:
– Mario, sei do seu interesse pelas cidades antigas; jogue fora as passagens aéreas para Maceió e conheça mais duas, além de São Cristóvão e Laranjeiras. Vocês continuam com o motorista e o carro que estão à disposição, atravessam o São Francisco e desembarcam em Penedo, cidade antiga à beira do rio. Depois, antes de chegar a Maceió, dão uma parada em Marechal Deodoro, onde nasceu o próprio.
Fosse o secretário mulher e ganharia um beijo no ato.
Nosso anfitrião não sabia que, muito antes de interessar-me pelas cidades antigas do Brasil, mantinha uma paixão de adolescente e platônica pelo véio Chico. Sempre que voltava do Nordeste, a 10 mil metros de altitude, suspirava quando via o véio se misturando com as águas do Atlântico. Esse suspiro, sei, era uma auto-repreensão meio sufocada.
Já me surpreendera, jovem, sonhando em pegar uma barcaça a vapor em Pirapora, Minas, e atravessar parte do país navegando pelo menos num bom trecho daqueles quase três mil quilômetros de extensão.
Apesar de Pessoa ensinar-me que navegar é preciso, a vida ainda não me doara aquela navegação específica.
Dia seguinte, pouco depois da despedida de Aracaju, minha mulher carregando o presente de uma escultura de madeira de São Francisco, o santo, eu, mais motorista e carro cruzávamos numa balsa o rio.
Senti-me como dedilhando a primeira conta de um rosário, sabendo que seria a primeira e última, pois a vida, inda que delicada, me reservara apenas uma pequena amostra daquele antigo sonho.
Desembarcamos na sede de uma povoação iniciada ainda no século XVI e elevada à cidade – Penedo – no início do século XVII. Apresentamos-nos na Secretaria Municipal de Cultura, e a condição de superintendente da Fundação Roberto Marinho nos concedeu o privilégio de ter como guia a própria titular da pasta.
Já escrevi aqui mesmo que tenho um “radar” que se encarrega de chamar minha atenção por algo inusitado que eu não esteja captando. Escrevi, quando no litoral da França, eu caminhava distraído por entre seios sem me dar conta que minha visão inaugurava a generosidade de uma praia de topless. Em Cannes, o radar me guiou até Yves Montand, parado num sinal, dirigindo um conversível vermelho.
Obedeci ao radar, observei o entorno e exclamei admirado:
– Mas essa cidade é muito limpa!
– Nosso prefeito é dentista e cuida da cidade como se fosse a nossa boca.
Ainda com um sorriso de reclame de dentifrício, prosseguimos viagem para Marechal Deodoro, povoação iniciada ainda no século XVI, antiga cidade de Alagoas e antiga capital daquele estado, a 25 quilômetros de Maceió, a atual. Estávamos na terra dos Collor, dos Calheiros e, felizmente, com sua honra previamente defendida como o berço de Graciliano Ramos.
Inté.

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