O Brasil é grande, mas eu sei que Itu é maior.
( Higino Corsetti, ex-ministro das Comunicações)
… em 18 de abril de 1873 na cidade paulista de Itu, com 133 representantes das classes conservadoras de várias profissões, aconteceu a Convenção Republicana.
… 16 anos depois, Deodoro desembainhou a espada na Praça da Aclamação, no Rio, e deu o golpe. Não havendo reclamação armada, colocaram Pedro, que foi o II, num navio e ele foi desfrutar o exílio na Oropa, França, mas Bahia, não. Por causa daquela Convenção, Itu ficou conhecida como o berço da República.
… o humorista Francisco Flaviano de Almeida, o Simplício, ituano de berço e caipira no programa Praça da Alegria, da TV Record, em 1967, começou a exaltar, com exagero, a cidade onde – jurava – tudo era grande, inclusive a mandioca, o que foi entendido como autopromoção de um bem dotado.
… o pessoal do marketing identificou a oportunidade e fez do exagero um ponto de venda turístico da cidade que, na Praça da Matriz, possui um orelhão e um semáforo gigantes, alegrias da criançada e que me remetem a Monteiro Lobato e sua Chave do Tamanho. Há, também, uma farta variedade de objetos enormes, como cotonetes, cédulas de dinheiro, martelos e canetas. Uma das lojas de souvernirs da cidade já no nome identifica o negócio: O Gigantão.
… este colunista, que em 13 de julho de 2003 iniciou sua colaboração semanal em Coletiva e, em 12 deste novembro, esqueceu-se que o lead ou nariz-de–cera de uma matéria só pode existir se houver matéria, atrapalhou-se todo, desculpou-se dos leitores e prometeu voltar ao assunto dos afetos e das reuniões.
… este colunista, igual ao grande líder Luiz Inácio da Silva, também vai cumprir o que prometeu, inda que o líder fala, mas não escreve.
… o seguinte: início deste ano, num telefonema de São Paulo para o Rio, Eduardo, o irmão, lembra que ele, Célia, Rachel e eu, os quatro irmãos Coelho Pinto de Almeida, por motivos geográficos, não conhecemos muitos sobrinhos-netos. Pragmático, peguei o calendário, observei que 2 de novembro, feriado, por ser uma sexta-feira, facilitaria a ida do meu clã “carioca”, da mana Célia, de Ribeirão Preto e, eventualmente, do time do meu sobrinho João Carlos, morando nos States. Em outubro, foram reiniciadas as conversações e como a sobrinha, socióloga Marta Farah, face a uma palestra
Essa nossa Convenção reuniu 40 pessoas, entre irmãos, descendentes, anexos e periféricos. Faltaram meu sobrinho nos States e minha filha Rachel, presa ao trabalho no Jornal do Brasil, aqui no Rio. Houve, ainda, uma segunda Convenção parcial num restaurante, já na capital, no domingo, dia 4.
Meu clã é muito afetuoso. Quem também é dispensa meus comentários. Quem não é jamais vai entender uma troca de olhar cúmplice, um carinho en passant nos cabelos, um beijo de puro impulso, o resgate de alguns gestos comuns, a tranqüila digestão de alimentos e a degustação de uma paz trazida pelo convívio coletivo.
Como explicar o que se passa na cabeça de alguém que vê a netinha andando a cavalo, como há décadas observara os filhos?
Como adivinhar todo o conteúdo de uma entrega de minhocas para o neto pescador? A História registra algo sobre essa passagem de bastão?
Qual é o prazer do animal urbano almoçando um peixe pescado por ele mesmo?
Há um medidor de sentimentos para quatro irmãos que conviveram no mesmo teto algumas décadas, outras separados e festejam um mínimo de 71 anos de fraternidade?
Registre-se o momento, nunca a ousadia de tentar explicá-lo.
Seria válido pedir socorro a Drummond?
“…Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.”
(Fragmento de A Mesa,
Por haver sido um momento raro, ele prossegue em mim através da atividade de uma sarna trazida de Itu, com todo o exagero que isso significa.
Ao alertar meu irmão sobre a indesejada, ele mandou-me uma explicação que não me ocorrera: “Sarna é típica dos Coelho”.
Feliz, muito feliz por essa informação remeter ao meu Coelho e não ao meu Pinto, despeço-me coçando.
“… Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
Para serem longamente
Reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
(Idem, idem, idem)
Inté.


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